Crédito imobiliário caro e juros altos levam classe média a optar pelo aluguel em vez da casa própria
A dificuldade crescente para adquirir um imóvel próprio no Brasil tem levado a classe média a postergar seus planos de ter a casa própria. O cenário é marcado pelo aumento expressivo das taxas de juros, o encarecimento generalizado do crédito imobiliário e a persistente alta nos custos relacionados à moradia. Esses fatores combinados resultaram em um aumento considerável no número de famílias brasileiras que optam pelo aluguel, segundo dados da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios Contínua (Pnad Contínua). A proporção de domicílios alugados no país subiu de aproximadamente 12 milhões em 2016 para 19 milhões em 2025, enquanto a de domicílios próprios recuou de mais de 65% para 60% no mesmo período.
Esse movimento ocorreu mesmo diante de um crescimento no estoque total de imóveis residenciais no Brasil, que avançou de 65 milhões para quase 80 milhões de unidades em menos de uma década. A principal barreira identificada para a compra de imóveis é o financiamento. Com juros imobiliários superando os 10% anuais e a exigência de entradas que podem atingir 30% do valor do imóvel, a aquisição tornou-se significativamente mais desafiadora para famílias de renda intermediária.
A situação foi agravada por um contexto de inflação elevada, especialmente em serviços, e um aumento expressivo no endividamento da população. Dados do Serasa indicam que o Brasil ultrapassou a marca de 80 milhões de inadimplentes em 2026, um aumento de quase 40% em relação a 2016, com o valor total das dívidas crescendo cerca de 175% no mesmo período. A pressão sobre o orçamento familiar é sentida principalmente em despesas urbanas essenciais, como aluguel, saúde, alimentação, educação e transporte.
Mudanças no perfil do mercado imobiliário
O mercado imobiliário também passou por transformações significativas. O segmento econômico ganhou destaque com a expansão de programas como o Minha Casa Minha Vida, que responde por mais da metade dos lançamentos residenciais em cidades como São Paulo. Paralelamente, o setor de luxo e superluxo continuou sua expansão, impulsionado por investidores beneficiados pelas altas taxas de juros. A classe média se viu espremida entre esses dois extremos, sem acesso facilitado a subsídios populares e com capital insuficiente para arcar com o encarecimento do crédito.
Aluguel se consolida como alternativa
Diante desse cenário, o aluguel emergiu como a alternativa mais acessível para uma parcela crescente da população. O índice FipeZap aponta que os preços de locação residencial aumentaram cerca de 10% nos últimos 12 meses, com o valor médio do metro quadrado alugado subindo de aproximadamente R$ 30 em março de 2020 para R$ 50 neste ano. Essa alta superou tanto a inflação oficial quanto o IGP-M, índice comumente utilizado para reajustes contratuais.
O mercado imobiliário tem respondido a essa demanda com um foco crescente em studios, apartamentos compactos e imóveis localizados em áreas centrais. Adicionalmente, observou-se um aumento nos investimentos em empreendimentos voltados exclusivamente para locação, conhecidos como multifamily, com empresas especializadas expandindo sua atuação e desenvolvendo edifícios inteiros destinados à geração de renda recorrente através de aluguéis. Essas mudanças acompanham transformações demográficas e econômicas, como o aumento de pessoas morando sozinhas, casais sem filhos, maior mobilidade profissional e a redução da capacidade de poupança.
O persistente desejo pela casa própria
Apesar da tendência de migração para o aluguel, o anseio pela casa própria permanece forte entre os brasileiros. Uma pesquisa da Ipsos revelou que mais de 75% dos que vivem de aluguel manifestam o desejo de comprar um imóvel, embora cerca de 35% acreditem não ter condições de realizar esse objetivo. O governo federal tem buscado ampliar o acesso ao crédito, por meio de iniciativas como a Faixa 4 do Minha Casa Minha Vida, que atende famílias com renda mensal de até R$ 12 mil e permite financiamentos de imóveis de até R$ 600 mil com prazos estendidos e juros de 10% ao ano. Contudo, o principal entrave continua sendo o comprometimento da renda familiar, levando a classe média a encarar o dilema entre financiamentos onerosos e a permanência no aluguel, cujos custos também seguem em ascensão.
