Classe média brasileira vê sonho da casa própria se afastar com aluguéis nas alturas e crédito restrito

Acesso à moradia própria se torna um desafio crescente para a classe média, afetada pela alta dos aluguéis e pelo crédito imobiliário caro

O sonho da casa própria está cada vez mais distante para a classe média brasileira. O aumento expressivo nos custos de aluguel, somado às dificuldades de acesso a financiamentos imobiliários e ao encarecimento da vida urbana, tem comprimido o poder de compra e a capacidade de poupança deste grupo. Rafael Bezerra, professor particular de inglês em São Paulo, exemplifica essa realidade. Ele paga R$ 1.890 por um apartamento de 40m² e relata que despesas mensais, lazer e a falta de reserva financeira dificultam a economia para a entrada de um imóvel.

O cenário é reforçado por dados da Pnad Contínua, que indicam um salto de 55% no número de imóveis alugados entre 2016 e 2025, passando de 12,2 milhões para 18,9 milhões. Paralelamente, a proporção de domicílios próprios caiu de 66,8% para 60,2% no mesmo período. Uma pesquisa da Ipsos aponta que 76% dos inquilinos desejam comprar um imóvel, mas 36% não acreditam que conseguirão.

Impacto da economia e do crédito no orçamento familiar

Apesar de indicadores como a taxa de desemprego em 6,1% e o PIB com alta de 2,3% em 2025, a percepção do poder de compra diminuiu. O economista André Sacconato, da FIPE/USP, explica que a classe média tem sido mais afetada pela inflação, especialmente em serviços, que sobem mais que outros produtos. Essa dinâmica faz com que a variação de preços supere o crescimento da renda nominal, gerando a sensação de falta de dinheiro.

Acumular os 20% a 30% do valor do imóvel para a entrada é a primeira barreira. A isso se somam os altos custos de financiamento imobiliário, com taxas anuais acima de 10%, e análises de crédito rigorosas. O programa Minha Casa, Minha Vida, expandido para famílias com renda de até R$ 13 mil, tem beneficiado o segmento econômico, mas o acesso a crédito para a classe média via Sistema Financeiro de Habitação (SFH) tem se tornado mais escasso e caro, conforme Alberto Ajzental, da FGV.

Dados da Abecip mostram que o número de unidades financiadas via SBPE diminuiu de 866 mil em 2021 para 457 mil em 2025. A entidade aponta que a captação de recursos para financiamento imobiliário tem um custo mais elevado, influenciando as taxas finais e o valor das prestações. Apesar disso, a Abecip projeta crescimento de 16% para o crédito imobiliário em 2026.

Aluguéis disparam e alteram o perfil do mercado imobiliário

O custo de moradia por aluguel também disparou. O Índice Fipezap indica que os aluguéis subiram 8,63% nos últimos 12 meses, com o preço médio do metro quadrado passando de R$ 30,37 para R$ 52,34. Essa variação supera significativamente o IPCA (4,14%) e o IGP-M (-1,83%). Paula Reis, economista do Grupo OLX, afirma que o proprietário de imóvel recuperou a renda perdida e que a população de aluguel atingiu o limite de comprometimento de renda.

Estudos indicam que a classe B (renda entre R$ 4.607,01 e R$ 16.186,00) é o maior grupo no mercado de aluguel, representando 49% das propostas em 2025. Este público busca previsibilidade e menor comprometimento de renda a curto prazo. O aluguel deixou de ser uma etapa temporária e tornou-se uma escolha estrutural para muitos, impulsionando a demanda por unidades compactas e funcionais.

O interesse de investidores e proprietários no mercado de locação cresceu, com o aluguel sendo visto como fonte de renda recorrente. Projetos voltados para investidores e o modelo de prédios multifamily, destinados integralmente à locação, ganham força. Empresas como Vila 11 e Greystar expandem suas operações nesse segmento, desenvolvendo empreendimentos para locação, inclusive com foco em média renda.

Governo busca soluções e especialistas avaliam a eficácia das medidas

O governo federal tem implementado medidas para lidar com os desafios habitacionais. O Programa Reforma Casa Brasil e a expansão do Minha Casa, Minha Vida com a Faixa 4 (renda mensal de R$ 8,6 mil a R$ 12 mil) são exemplos. O programa permite financiar imóveis de até R$ 600 mil com taxas de 10% ao ano, em até 420 meses, mas sem subsídios.

Especialistas como Alberto Ajzental avaliam que as iniciativas são positivas, mas não suficientes para reverter o quadro. Ele defende maior controle de gastos do governo e esclarecimento financeiro da população. A compra de imóvel, embora aspiracional, está travada pela instabilidade financeira das famílias, que veem no aluguel uma saída mais acessível a curto prazo, apesar de suas próprias limitações.

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