Mercado imobiliário quer crescer com envelhecimento dos brasileiros
O setor imobiliário brasileiro vislumbra uma nova oportunidade de crescimento impulsionada por uma transformação demográfica: o envelhecimento da população. Diante de um país com cada vez mais idosos e famílias menores, incorporadoras começam a apostar em modelos de empreendimentos que combinam moradia, serviços de hotelaria e suporte à saúde, inspirados em experiências internacionais.
Essa tendência se alinha com as projeções do IBGE, que indicam um aumento expressivo na proporção de idosos no Brasil. Em 2022, pessoas com 60 anos ou mais representavam 15,8% da população, um número que deve saltar para quase 38% em 2070. A chamada “geração prateada” atual é mais ativa e longeva, o que gera novas demandas por espaços que ofereçam autonomia e qualidade de vida.
Empreendimentos pioneiros para a terceira idade
Um dos primeiros projetos a materializar essa aposta é o Naara Higienópolis, lançado em novembro de 2025 pela Tecnisa em parceria com a Naara Longevity Residences. Com entrega prevista para outubro de 2028, o empreendimento em Higienópolis, São Paulo, foi pensado para pessoas a partir de 75 anos. Dos 106 apartamentos, 70 são destinados ao público sênior, com opções de venda e locação.
O metro quadrado no Naara Higienópolis custa cerca de R$ 28,5 mil, aproximadamente 15% a 20% mais caro que empreendimentos convencionais na mesma região. O condomínio, estimado em R$ 6,5 mil mensais, inclui uma gama de serviços que integram hotelaria, saúde e lazer. A operação hoteleira é gerida pela HCC Hotéis, enquanto a True Health cuida do ambulatório e do atendimento de emergência 24 horas. O restaurante fica a cargo da rede Badauê.
Joseph Nigri, fundador da Naara Longevity Residences e ex-comandante da Tecnisa, destaca que a proposta se diferencia das tradicionais casas de repouso. “Tem um restaurante, não um refeitório. Você pode pedir comida, cozinhar, receber sua família ou sair para jantar”, explica Nigri. A ideia é oferecer autonomia com segurança, foco na prevenção de acidentes domésticos.
A aposta da Vitacon em estúdios acessíveis
Outra incorporadora que se volta para esse mercado é a Vitacon, conhecida por seus microapartamentos. A empresa lançará em agosto de 2026 um projeto em Higienópolis com 510 unidades de 30 m², desenvolvidos com consultoria do Hospital Albert Einstein. O foco principal será a locação, com unidades custando entre R$ 840 mil e R$ 900 mil.
O projeto da Vitacon prevê adaptações para possíveis necessidades de saúde, como corredores amplos para cadeirantes e macas, e elevadores preparados para esse tipo de emergência. A empresa planeja expandir essa linha com mais dois empreendimentos sênior para 2027.
Desafios culturais e econômicos
Apesar do potencial, o mercado de senior living no Brasil ainda enfrenta barreiras culturais. Mudar para um condomínio voltado para a terceira idade, mesmo com condições financeiras, ainda é incomum, e há dúvidas sobre a aceitação dos próprios idosos em espaços exclusivos para essa faixa etária.
Para contornar essa situação, o Naara Higienópolis prevê a oferta de estúdios para jovens, com aluguel subsidiado em troca de participação na rotina do condomínio. A Vitacon, por sua vez, pretende diversificar o perfil dos moradores com locação de curta duração em parte de suas unidades.
A consolidação deste modelo no Brasil dependerá da capacidade das empresas em demonstrar a viabilidade econômica e os ganhos em qualidade de vida, autonomia e socialização que esses empreendimentos oferecem, superando a visão de locais como casas de repouso.
