A compra de imóveis no Brasil entra na era 100% digital, transformando a experiência do consumidor, impulsionando um mercado de R$ 375 bilhões e desafiando a burocracia tradicional

A partir de 2026, a jornada de aquisição imobiliária, da pesquisa ao registro, se consolida no ambiente virtual, prometendo eficiência e segurança, mas enfrenta o desafio da infraestrutura cartorial desigual

O mercado imobiliário brasileiro caminha para uma transformação estrutural sem precedentes, com a compra de imóveis consolidando-se na era 100% digital a partir de 2026. A estimativa da Câmara Brasileira da Indústria da Construção (CBIC) aponta para um volume de R$ 375 bilhões em financiamentos ao longo desse ano, refletindo a força da digitalização do sistema financeiro e a maturidade de plataformas jurídicas e imobiliárias.

A legislação brasileira é um pilar central dessa mudança. A Lei 14.063/2020, por exemplo, estabeleceu três níveis distintos de assinatura digital, criando um robusto arcabouço jurídico para a formalização segura de contratos eletrônicos.

O advogado patrimonialista Amadeu Mendonça, especialista em Negócios Imobiliários e sócio-fundador do Tizei Mendonça Advogados Associados, detalha a importância da escolha correta da modalidade de assinatura eletrônica para a segurança das transações.

A Lei 14.063/2020 classifica as assinaturas eletrônicas em três níveis: simples, avançada e qualificada. Para contratos imobiliários, ainda que sejam contratos privados, como uma promessa de compra e venda, o recomendável é a assinatura qualificada, que utiliza certificado digital ICP-Brasil e oferece o maior grau de segurança e rastreabilidade.

Atualmente, a jornada digital permite ao comprador realizar desde tours virtuais pelos imóveis até a obtenção de documentos e certidões online. A análise de crédito, a assinatura eletrônica de contratos e o protocolo digital do registro imobiliário já são realidade.

Desafios e oportunidades da digitalização

Contudo, o processo ainda apresenta um gargalo significativo: a infraestrutura cartorial. Embora grandes centros urbanos já operem com sistemas eletrônicos avançados, a disparidade é notável em municípios do interior, onde o protocolo de atos de forma integralmente virtual ainda encontra dificuldades, conforme observa Amadeu Mendonça.

O ambiente digital também expande as possibilidades de investimentos. Rodrigo de Abreu Pinto, presidente do Instituto Brasileiro de Finanças Digitais (IFD), destaca a viabilidade de transações imobiliárias 100% digitais que não exigem registro imediato em cartório, como participações em receitas de locação, cessão de recebíveis e quotas de investimento, incluindo os tradicionais “contratos de gaveta”.

O ambiente digital amplia o acesso a investimentos imobiliários e viabiliza novos modelos de negócio, como o fracionamento de ativos e a participação em receitas, mas também exige maior atenção à governança e à transparência das operações.

Plataformas como a Netspaces já realizam parte dessas operações digitalmente. A Associação dos Notários e Registradores do Brasil revela que cerca de quatro em cada dez imóveis urbanos no país carecem de regularização, um cenário de informalidade que afeta milhões de brasileiros. A adaptação do sistema registral para permitir a transferência digital da propriedade é o próximo passo crucial para mitigar esse problema.

Cuidado redobrado na era digital

Mesmo com os avanços tecnológicos, os cuidados essenciais nas transações imobiliárias online permanecem inalterados. Amadeu Mendonça ressalta a importância de verificar a matrícula do imóvel, checar a existência de ônus como hipotecas e penhoras, confirmar débitos de IPTU e condomínio e assegurar a titularidade do vendedor.

O ambiente digital acrescenta um risco específico: a facilidade de falsificação de documentos e a proliferação de golpes em plataformas de anúncios. Nunca faça pagamentos antes de confirmar a titularidade do imóvel e a identidade do vendedor por fontes oficiais. Desconfie de preços muito abaixo do mercado sem justificativa aparente, em imóvel, quando parece bom demais para ser verdade, geralmente é.

A digitalização redefine o setor, mas a vigilância e a diligência continuam sendo fatores determinantes para a segurança e o sucesso das negociações imobiliárias.

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