Autônomos lideram busca por aluguel, e classe C ocupa 60% da renda com moradia
O mercado de locação de imóveis no Brasil registra uma mudança significativa em seu perfil de inquilino. Trabalhadores autônomos, profissionais liberais, microempreendedores individuais (MEIs) e empresários agora lideram a procura por imóveis para alugar. Paralelamente, a pressão financeira sobre as famílias, especialmente da classe C, aumenta, com até 60% da renda mensal sendo destinada ao pagamento de aluguel e despesas correlatas.
Esses dados são oriundos do Anuário FC Analise 2025, um levantamento realizado pela plataforma de análise de crédito imobiliário. O estudo revela um cenário marcado por instabilidade na renda, maior propensão à inadimplência e desafios para todos os envolvidos no processo de locação, desde inquilinos e proprietários até as imobiliárias.
Cresce a participação de autônomos no mercado de locação
A análise, que abrangeu mais de 109 mil propostas de locação e quase 200 mil análises individuais de CPF em 2025, constatou que 54% dos candidatos à locação possuem renda considerada instável. Esse grupo supera os trabalhadores contratados sob o regime CLT, que representam 33% dos analisados.
Marcus Costa, co-CEO da FC Analise, explica que a transformação no mercado de trabalho reflete diretamente no perfil dos inquilinos. “A demanda é puxada por quem está em fase de formação familiar, mobilidade profissional e consolidação de carreira. Esse é o público que mais muda de endereço e tem pouca paciência para burocracia, o que exige processos rápidos e inteligentes de análise”, afirma.
Gerações Y e Z impulsionam o mercado
A geração Y, composta por indivíduos entre aproximadamente 30 e 45 anos, concentra 42% das propostas de locação. A geração Z segue de perto, com 30%, seguida pela geração X (18%) e pelos baby boomers (10%).
Morar de aluguel se torna mais comum, mas pesa no bolso
O levantamento também aponta um crescimento contínuo no número de brasileiros que vivem de aluguel. Dados do IBGE, citados pela pesquisa, indicam que a proporção de moradias alugadas subiu de 22,3% para 23% entre 2023 e 2024, totalizando 17,8 milhões de domicílios.
Contudo, esse aumento na procura ocorre em um contexto de orçamento familiar cada vez mais apertado. A classe C, que constitui cerca de 61% da população brasileira, é a mais afetada pela fragilidade financeira.
Classe C: o maior impacto financeiro com moradia
Quase metade dos pretendentes destina entre 30% e 50% de sua renda ao aluguel. Adicionalmente, outros 20% ultrapassam esse patamar, chegando a comprometer até 60% dos ganhos mensais apenas com a moradia.
Para especialistas em finanças, o cenário é preocupante. O aluguel não deveria ultrapassar 30% da renda familiar. Se ultrapassa esse limite, um alerta amarelo é aceso. É preciso lembrar que o aluguel é um compromisso de longo prazo, normalmente de até 30 meses, com implicações jurídicas em caso de inadimplência.
Marcelo Milech, consultor de valores mobiliários, ressalta a importância de considerar todos os custos associados à moradia. Além do aluguel, é fundamental incluir despesas como condomínio, IPTU, contas de água, luz, gás, internet e transporte no planejamento financeiro.
Virginia Prestes, professora de finanças e assessora de investimentos, reforça que ignorar essas despesas pode levar ao endividamento. “É fundamental colocar todos os custos fixos na ponta do lápis antes de assinar o contrato”, orienta.
O risco da “renda inflada” entre autônomos
O estudo da FC Analise também destaca um problema crescente: a “renda inflada”. Esse fenômeno ocorre principalmente com autônomos e MEIs que utilizam extratos bancários para comprovar sua renda. A mistura de despesas pessoais e empresariais na mesma conta pode criar uma percepção de receita maior do que a realidade disponível para o pagamento do aluguel.
“Esse é um dos riscos mais silenciosos do setor. Muitas vezes o extrato bancário reflete apenas o fluxo de caixa do negócio, e não a renda efetiva da pessoa”, observa Marcus Costa. Este contexto acompanha o crescimento do empreendedorismo no país, com 3,8 milhões de novos MEIs registrados apenas em 2025.
Planejamento e pesquisa: chaves para evitar o endividamento
Os índices de reprovação de propostas de locação reforçam as desigualdades econômicas. Enquanto a rejeição atinge 25% das propostas da classe A, esse percentual sobe para 35% na classe B, 64% na classe C e chega a impressionantes 95% entre candidatos das classes D e E.
Diante desse cenário, especialistas defendem um planejamento financeiro rigoroso e uma pesquisa aprofundada antes da assinatura de qualquer contrato.
- Busque equilíbrio financeiro: André Massaro, professor de finanças, enfatiza que o aluguel é uma despesa recorrente e permanente, exigindo um equilíbrio financeiro constante.
- Reduza gastos supérfluos: Procurar reduzir despesas que não impactam diretamente a qualidade de vida e buscar alternativas para aumentar a renda são recomendações importantes.
- Construa uma reserva de emergência: Ter uma reserva capaz de cobrir pelo menos quatro meses das despesas familiares é crucial para evitar inadimplência em caso de imprevistos, como desemprego.
A escolha do imóvel também exige atenção. Pesquisar o valor médio de imóveis na região e desconfiar de ofertas muito abaixo do mercado pode prevenir problemas estruturais, de segurança ou relacionados ao condomínio.
A localização é outro fator determinante, impactando diretamente os custos com deslocamento. Para famílias, a proximidade de escolas e serviços também é um diferencial.
Ao visitar o imóvel, verifique a estrutura, instalações elétricas e hidráulicas, e considere a necessidade de reformas. Custos de mudança e reparos devem ser incluídos no orçamento.
Reajustes e garantias: pontos de atenção
É fundamental estar atento aos reajustes anuais. Contratos indexados ao IGP-M podem apresentar altas significativas. Especialistas sugerem avaliar contratos com índices como o IPCA ou INCC, que tendem a ser menos voláteis.
As garantias locatícias, como seguro-fiança, título de capitalização, fiador ou depósito caução, também impactam o custo inicial. O depósito caução, por exemplo, pode exigir o desembolso de até três meses de aluguel antecipadamente.
