Imóveis multigeracionais: a aritmética da moradia que redefine o mercado imobiliário frente à crise de acessibilidade

A matemática por trás da decisão de morar junto impulsiona imóveis multigeracionais nos EUA e no Brasil

A noção de famílias extensas residindo sob o mesmo teto, outrora comum em cenários de novelas brasileiras, retorna ao debate imobiliário como uma solução financeira. O aumento expressivo nos preços de imóveis, que nos Estados Unidos subiram 53% desde 2019 enquanto a renda mediana cresceu apenas 24% no mesmo período, é o principal motor dessa tendência. Essa disparidade levou a idade mediana do primeiro comprador a um recorde de 40 anos em 2025, evidenciando que a capacidade de acessar um imóvel adequado se tornou o fator determinante, substituindo a preferência. A combinação de rendas entre gerações surge como resposta direta a esse desafio da acessibilidade.

A National Association of Realtors (NAR) aponta que, em 2025, 14% das aquisições de imóveis nos Estados Unidos foram destinadas a abrigar múltiplas gerações. Deste percentual, a geração X, com idades entre 45 e 60 anos, lidera com 19% de suas compras. A motivação financeira ganhou força considerável, saltando de 15% em 2015 para 36% em 2024 entre os compradores de imóveis multigeracionais, indicando uma transição de decisões predominantemente afetivas para estratégicas.

Brasil acompanha a tendência com desafios demográficos e econômicos

No Brasil, dados do Censo Demográfico de 2022 do IBGE revelam uma dinâmica semelhante, embora com uma velocidade distinta. Enquanto o arranjo nuclear ainda predomina, com 64,1% dos domicílios, famílias com filhos representaram pela primeira vez menos da metade do total. Paralelamente, foram registrados 3,2 milhões de domicílios abrigando duas ou mais famílias conviventes, o que representa 5,5% do total, totalizando 6,6 milhões de famílias nessa condição.

Essa transformação é impulsionada por mudanças demográficas significativas. A proporção de idosos com 60 anos ou mais na população brasileira quase dobrou entre 2000 e 2023, passando de 8,7% para 15,6%, segundo projeções do IBGE. A expectativa é que em 2040 o país tenha mais idosos do que crianças e adolescentes. Soma-se a isso a projeção de queda na demanda anual por novos domicílios, de 1,023 milhão de unidades entre 2026-2030 para 434 mil entre 2036-2040, segundo um estudo do Brain Inteligência Estratégica. Famílias menores, com membros mais idosos e sob pressão econômica, tendem a buscar soluções habitacionais que o mercado ainda não oferece de maneira sistemática.

O imóvel multigeracional como estratégia patrimonial e de mercado

A escolha por morar junto em mercados onde a separação é financeiramente viável sugere que o imóvel multigeracional está sendo reavaliado como uma decisão patrimonial. A união de rendas permite a qualificação para financiamentos maiores, a divisão de custos fixos e a possibilidade de cuidado com pais idosos sem a necessidade de serviços externos. É fundamental, contudo, o planejamento de acordos claros sobre propriedade, custos e estratégias de saída para mitigar riscos em cenários adversos.

O setor imobiliário brasileiro, que soube valorizar o imóvel compacto, agora enfrenta o desafio de desenvolver produtos que acomodem mais de uma geração sem comprometer a privacidade. Mercados como o canadense já oferecem soluções consolidadas, com suítes independentes, entradas separadas e unidades anexas. A premissa de projeto para o mercado primário brasileiro pode ser o imóvel adaptável, que antecipe variações futuras na configuração familiar, agregando valor além da área construída.

Oportunidades no estoque existente e a flexibilidade como chave

A adaptação de imóveis antigos, construídos nas décadas de 1970 a 1990 com plantas mais amplas, representa outra frente de oportunidade. Reformar e redistribuir esses espaços com divisões flexíveis, entradas independentes ou suítes autônomas pode atender à demanda por convivência intergeracional. Esses imóveis, sem saber, foram projetados para o mercado que agora emerge, apresentando potencial para corretores e investidores.

Os dados dos EUA e do Brasil indicam um crescimento na demanda por imóveis multigeracionais nos anos 2030, impulsionado pelo envelhecimento populacional, pela queda na acessibilidade financeira e pela reconfiguração dos arranjos familiares. A imprevisibilidade comportamental adiciona uma camada de complexidade. O setor que se destacará será aquele capaz de oferecer produtos flexíveis, aptos a atender a mais de um futuro possível.

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *