O Programa Reforma Casa Brasil, que visa facilitar o acesso a crédito para obras e melhorias em moradias, registrou uma adesão significativamente menor do que o esperado pelo setor de materiais de construção. Até julho de 2026, foram liberados R$ 2,7 bilhões, representando apenas 6,7% do orçamento total de R$ 40 bilhões da iniciativa. Essa performance abaixo do previsto tem gerado preocupação e levado a revisões nas projeções de crescimento da indústria.
Lançada em outubro do ano anterior, a iniciativa oferece empréstimos com juros reduzidos, abrangendo materiais, mão de obra e serviços técnicos. Apesar de ter dobrado o volume de crédito concedido desde maio, quando somava R$ 1,3 bilhão, o programa ainda não atingiu as expectativas. O número de contratos firmados chegou a 117,3 mil, com um valor médio de R$ 23,4 mil por operação, sendo a maioria destinada a famílias com renda de até R$ 3,2 mil.
Governo busca acelerar adesão com flexibilização
Diante da baixa procura inicial, o governo implementou mudanças significativas em maio de 2026. O limite de renda familiar para participação no programa foi elevado de R$ 9,6 mil para R$ 13 mil. Além disso, a taxa mínima de juros foi reduzida de 1,17% para 0,99% ao mês, e o prazo máximo de financiamento ampliado de 60 para 72 meses. O Ministério das Cidades avalia que o programa tem cumprido seus objetivos sociais e permanece sob monitoramento constante para ajustes.
Indústria de materiais revisa projeções de crescimento
O setor empresarial demonstra um panorama mais cauteloso. As vendas da indústria de materiais de construção registraram uma queda de 3,4% no primeiro semestre de 2026, em comparação com o mesmo período do ano anterior. Como consequência, a Associação Brasileira da Indústria de Materiais de Construção (Abramat) reduziu sua projeção de crescimento para o ano de 1,9% para apenas 0,5%.
Mauro Franco, presidente da Abramat, atribui essa revisão às condições econômicas atuais, como a taxa Selic elevada a 14,25% ao ano, o alto nível de endividamento das famílias e o desempenho insatisfatório do programa de crédito para reformas. Ana Maria Castelo, coordenadora de projetos da construção na FGV, complementa que as taxas de juros iniciais mais altas e a curva de aprendizado na implementação do programa contribuíram para a lenta adesão.
Famílias optam por reformas em etapas
O cenário de orçamento familiar apertado é um fator determinante para a performance do mercado. O endividamento elevado e o aumento dos preços dos materiais, influenciados por tensões geopolíticas em momentos anteriores, têm impactado diretamente a capacidade de compra dos consumidores. Essa situação tem levado as famílias a optarem por realizar reformas em etapas, concluindo uma fase, como a instalação de revestimentos, antes de iniciar a próxima, como a pintura, conforme a disponibilidade financeira permite.
Dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) confirmam essa tendência, com uma queda de 1% no volume de vendas dos varejistas de materiais nos primeiros cinco meses do ano. Embora o faturamento nominal tenha subido 2,6%, o aumento não compensou a inflação, resultando em um cenário de empate técnico para o setor.
Preocupação com desvio de recursos do crédito
Uma preocupação adicional manifestada por lojistas, representada pela Associação Nacional dos Comerciantes de Material de Construção (Anamaco), é a ausência da exigência de nota fiscal para comprovar a aquisição de materiais. Segundo Cássio Tucunduva, presidente da Anamaco, essa brecha na regulamentação pode permitir que parte dos recursos liberados seja desviada para outros fins, como apostas ou quitação de dívidas, em vez de ser integralmente destinada ao comércio de materiais de construção.
A entidade já alertou o governo sobre essa vulnerabilidade, que pode comprometer o fluxo financeiro esperado para o varejo do setor.
