Nada de Dubai: construtora aposta em arquitetura autoral no metro quadrado mais caro do Brasil
Itapema, no litoral de Santa Catarina, encerrou o primeiro semestre de 2026 ostentando o título de cidade com o metro quadrado residencial mais caro do Brasil. Segundo o Índice FipeZap de julho, o valor médio atingiu R$ 15.327, superando Balneário Camboriú, que liderava desde 2022. É neste cenário competitivo que a ABC Empreendimentos, incorporadora com sede na própria Itapema, opta por um caminho distinto: a arquitetura autoral como principal diferencial, distanciando-se da busca por superlativos verticais.
Enquanto Balneário Camboriú é conhecida como a “Dubai brasileira”, com arranha-céus imponentes e planos para o Senna Tower, o maior residencial do mundo, a ABC Empreendimentos foca em empreendimentos de menor porte, com poucas unidades e a chancela de renomados arquitetos. “Nós sempre entendemos que quem fazia mais do mesmo briga por preço. E quem fazia projetos autorais, com personalidade, com identidade, entregava valor, entregava algo atemporal, uma coisa que viraria com certeza ícone”, afirma Thiago Cabral, fundador e CEO do grupo, em entrevista à EXAME.
A estratégia de longo prazo da ABC Empreendimentos
Fundada em 2011 por Thiago Cabral e Abelardo Benigno, a trajetória da ABC & Embralot começou ainda mais cedo, com Cabral atuando como corretor em Itapema aos 16 anos. Os primeiros salários foram investidos na compra de lotes, numa época em que a região ainda não detinha a proeminência imobiliária atual. Essa visão de longo prazo e aquisição disciplinada de terrenos resultou em um expressivo land bank com mais de 12 milhões de metros quadrados no litoral catarinense, um dos maiores da região.
Entre 2022 e 2025, a empresa lançou mais de R$ 3,5 bilhões em VGV (Valor Geral de Vendas) e entregou duas mil unidades, demonstrando sua capacidade de execução e crescimento.
Arquitetura autoral: um movimento pós-pandemia
A guinada para a arquitetura autoral pela ABC Empreendimentos ocorreu pouco antes do início da pandemia. Cabral notava uma homogeneidade estética nos empreendimentos do litoral catarinense, com poucos escritórios de arquitetura de renome envolvidos. “Aqui não se tinha ninguém que contratava um grande estúdio, um grande arquiteto. Era o que você vê daqui da sacada: parece que tudo foi feito pelo mesmo arquiteto, tudo muito parecido, tudo igual, sem personalidade”, relata.
O primeiro projeto com essa nova diretriz foi o 143 Mayfair, em Itapema, assinado pelo arquiteto Leo Maia e inspirado em hotéis boutique de Londres. Entregue em 2025, o empreendimento conta com apenas 20 apartamentos de alto padrão, com vista para o mar, rooftop panorâmico e spa. Seu VGV foi de R$ 100 milhões.
“Mais do que estética, a arquitetura autoral é uma forma de pensar a cidade com propósito”, defende o empresário.
Projetos de destaque e o conceito de “luxo silencioso”
Após o Mayfair, a ABC entregou o Bravo Residences, na Praia Brava, em Itajaí. Este foi o primeiro projeto inteiramente assinado pelo escritório de Arthur Casas em Santa Catarina, com apenas seis apartamentos de plantas generosas e paisagismo de Ricardo Cardim. A construtora aponta que o metro quadrado em imóveis ultraexclusivos nessa área pode ultrapassar R$ 100 mil, com potencial de valorização anual de até 30%.
O próximo lançamento é o ENÁ, na Praia do Estaleiro, em Balneário Camboriú. Projetado por Jayme Bernardo, o empreendimento trará seis mansões suspensas, com áreas entre 400 e 640 metros quadrados, e um VGV de R$ 150 milhões. A região possui restrições urbanísticas que limitam a construção a poucas andares, contrastando com a verticalização típica de Balneário Camboriú.
A ABC descreve seu posicionamento como “luxo silencioso”, uma abordagem discreta em oposição à ostentação.
Disputa de modelos no litoral catarinense
A coexistência entre empreendimentos de grande escala e projetos de arquitetura autoral reflete uma disputa no litoral catarinense. De um lado, as torres recordistas e marcas globais; de outro, edifícios com poucas unidades, curadoria de arquitetos brasileiros e a discrição como diferencial.
O perfil dos compradores também tem mudado. Além de investidores internacionais, a ABC Empreendimentos registra um aumento significativo na venda para clientes de São Paulo nos últimos meses. Para Cabral, isso representa uma validação por um “público de muito bom gosto”.
Thiago Cabral reforça que a aposta na arquitetura autoral deixou de ser um projeto pontual e se tornou uma política permanente da companhia. “Não interessa o resultado que isso dá financeiramente. Nós vamos fazer o que a gente acha que vai ser melhor para o nosso cliente e para o nosso mercado”, conclui. A expectativa é que essa abordagem inspire outros incorporadores a encarar cada projeto como uma obra de arte.
