A recente tarifa adicional imposta pelos Estados Unidos, embora não deva impactar diretamente a construção civil brasileira em larga escala, apresenta riscos significativos por meio de efeitos indiretos no cenário macroeconômico. A preocupação central reside na potencial pressão sobre os juros e os custos do setor, conforme aponta a Câmara Brasileira da Indústria da Construção (CBIC).
Dionyzio Klavdianos, vice-presidente de inovação da CBIC, explicou que o setor construtivo brasileiro não é um grande exportador de serviços nem um importador expressivo de insumos, dando preferência a fornecedores nacionais. Isso minimiza o impacto direto, mas a instabilidade gerada pela disputa comercial pode afetar o ambiente econômico, especialmente em suas variáveis macro. “Toda essa instabilidade, essa confusão e esse ir e vir afetam o cenário econômico, principalmente o macroeconômico,” afirmou Klavdianos em entrevista ao Times Brasil.
Impacto indireto e o PVC na construção
A construção civil não figura entre os setores mais expostos ao tarifaço no momento. Contudo, a CBIC monitora de perto o comportamento de insumos como o PVC, essencial para tubulações, esquadrias e revestimentos. Apesar de os Estados Unidos serem fornecedores relevantes de matéria-prima para o PVC, o produto em si não foi diretamente taxado pela nova tarifa americana.
A apreensão maior reside em uma possível retaliação do governo brasileiro que poderia elevar os custos de importação desse material. “Esse insumo não foi taxado, mas olhamos com atenção porque ele já tem uma proteção grande, com imposto de importação e tarifa antidumping. Em um eventual movimento de reciprocidade, isso poderia impactar, porque o PVC é muito importante,” ressaltou Klavdianos, destacando que tal medida não está nos planos do governo atualmente.
Juros elevados: um desafio maior para o setor
Segundo a CBIC, o nível ainda elevado dos juros representa um obstáculo mais substancial para a construção civil do que os efeitos diretos das tarifas. O setor, que depende fortemente de financiamentos para aquisição de imóveis, desenvolvimento de projetos e execução de obras, vê seu dinamismo ameaçado.
Uma deterioração do câmbio ou um aumento da inflação, que poderiam ser desencadeados por tensões comerciais, teriam o potencial de reduzir o espaço para novos cortes na taxa de juros. “Essa imprevisibilidade, se afetar câmbio e inflação, pode bloquear a queda dos juros. Isso pode afetar o setor,” alertou o vice-presidente da entidade.
Apesar do custo do crédito, os indicadores do setor apresentaram resultados positivos no início de 2026. As vendas no mercado imobiliário registraram um crescimento de 4,1% no primeiro trimestre, e o Produto Interno Bruto (PIB) da construção civil avançou 2,9%. Esse desempenho foi impulsionado também por investimentos em infraestrutura, projetos ligados ao novo marco do saneamento e pela execução de obras em um ano eleitoral.
Falta de mão de obra impulsiona industrialização
Paralelamente às questões financeiras, a construção civil enfrenta uma acentuada escassez de mão de obra, o que tem levado as empresas a buscarem maior produtividade por meio da racionalização de processos e da industrialização. A dificuldade em contratar trabalhadores qualificados tem forçado o setor a ampliar o uso de componentes pré-fabricados e a reduzir as etapas de construção realizadas diretamente nos canteiros de obra.
“A industrialização não é mais uma questão de opção, é uma necessidade”, afirmou Klavdianos. Esse movimento, intensificado desde a pandemia, envolve construtoras, entidades setoriais e órgãos públicos, buscando otimizar a produção. Embora a inteligência artificial comece a ser integrada, a principal transformação está na industrialização dos processos produtivos. “É uma indústria cujos índices de produtividade ainda estão aquém do esperado. A dificuldade de encontrar mão de obra também nos pressiona a caminhar no sentido da industrialização”, concluiu.
