A classe C, que compõe a maior parte da população brasileira, enfrenta desafios significativos na busca por moradia. Um levantamento recente revela que muitos desse grupo destinam uma parcela considerável de seus rendimentos, entre 30% e até 60%, para o pagamento do aluguel. Essa situação acende um alerta no mercado imobiliário, indicando uma fragilidade financeira crescente para uma parcela expressiva da sociedade.
O estudo, baseado em mais de 100 mil propostas de locação, também aponta uma mudança notável no perfil dos locatários. Profissionais autônomos e Microempreendedores Individuais (MEIs) agora superam os trabalhadores com carteira assinada (CLT) entre os interessados em alugar imóveis. Esse cenário impõe novos desafios para as imobiliárias na análise de crédito, especialmente devido à natureza variável da renda desses profissionais.
Aluguel pesa no orçamento da classe C
O Anuário FC 2025, elaborado pela FC Analise, plataforma de análise de crédito imobiliário, compilou dados de 109.562 propostas de locação em 2025. Os resultados indicam que 48% dos pretendentes da classe C comprometem entre 30% e 50% de seus salários com o aluguel. Um percentual adicional de 20% chega a destinar até 60% de seus ganhos para a moradia.
Marcus Costa, co-CEO da FC Analise, destaca que patamares de comprometimento de renda acima de 30% já sinalizam pressão no orçamento familiar. Ele explica que o aluguel, por ser uma despesa fixa e de difícil ajuste rápido, pode gerar instabilidade financeira caso ocorram imprevistos, como perda de receita ou gastos inesperados.
A classe B também demonstra sinais de pressão, com 26% de seus proponentes destinando 30% ou mais de seus ganhos ao aluguel, segundo o estudo que analisou 198.393 CPFs.
Demanda por locação impulsionada por jovens e autônomos
O levantamento aponta que a demanda por imóveis para locação é majoritariamente puxada por jovens. Cerca de 72% dos requerentes têm entre 18 e 45 anos, com a Geração Y (32%) e a Geração Z (30%) liderando as propostas.
Esse público, em fase de formação familiar, mobilidade profissional e consolidação de carreira, tende a mudar de endereço com mais frequência. Conforme Marcus Costa, essa característica exige processos de análise de crédito mais ágeis e eficientes.
“Esse é o público que mais muda de endereço e tem pouca paciência para burocracia, o que exige processos rápidos e inteligentes de análise.”
O número de domicílios alugados no Brasil tem crescido, passando de 22,3% para 23% entre 2023 e 2024, totalizando 17,8 milhões de lares, conforme dados do IBGE.
Renda variável de autônomos desafia análise de crédito
Um dos pontos de maior atenção do estudo é a avaliação de trabalhadores com renda não linear. Autônomos, empresários e candidatos que não informaram a origem da renda representam 54% da base analisada, superando os trabalhadores CLT (33%) e funcionários públicos/aposentados (13%).
A análise de crédito tradicional, muitas vezes baseada apenas em extratos bancários, pode se tornar imprecisa. O co-CEO da FC Analise explica que, no caso de MEIs e profissionais autônomos, o fluxo de caixa da empresa pode ser misturado a despesas pessoais, distorcendo a percepção da renda disponível real para o aluguel.
Com 3,8 milhões de novas aberturas de CNPJ como MEI em 2025, segundo o Sebrae, a tendência de rendas variáveis nas locações tende a se consolidar.
Taxa de reprovação aumenta em faixas de menor renda
O estudo da FC Analise evidencia um aumento significativo na reprovação de propostas de aluguel à medida que a faixa de renda diminui. Enquanto a taxa é de 25% para a classe A, sobe para 35% na classe B, chega a 64% na classe C e atinge um pico de 95% nas classes D e E.
Para mitigar riscos de inadimplência e aprimorar a tomada de decisão, o anuário recomenda a adoção de critérios técnicos e análise de dados. A plataforma sugere a implementação de ferramentas como o Score FC, que utiliza inteligência analítica e considera padrões de comportamento específicos para calcular o risco financeiro de locatários.
A adaptação dos modelos de análise de crédito para o novo perfil de locatário é vista como fundamental. Com dados mais precisos, imobiliárias podem otimizar a captação de imóveis, direcionar ofertas e reduzir riscos para proprietários e inquilinos.
