Desenrola 2.0 e FGTS para dívidas frustram os planos do setor imobiliário para 2026

Setor imobiliário reavalia projeções para 2026 com novas medidas econômicas

O início de 2026 trazia um cenário de otimismo para o setor imobiliário, impulsionado pela expectativa e posterior concretização de cortes na taxa Selic. No entanto, uma semana após a redução da taxa básica de juros para 14,50%, o anúncio do Desenrola 2.0 e a liberação de até 20% do saldo do Fundo de Garantia do Tempo de Serviço (FGTS) para quitação de dívidas adicionaram um componente de incerteza.

O programa federal visa combater o endividamento recorde da população, focando em dívidas de alto custo como cartão de crédito, cheque especial e crédito pessoal. A medida, que permite a transferência direta de recursos do FGTS para bancos credores, é direcionada a pessoas com renda de até cinco salários mínimos, público frequentemente associado a linhas de financiamento imobiliário e ao programa Minha Casa, Minha Vida.

Impacto financeiro e social da liberação do FGTS

A Associação Brasileira de Incorporadoras (ABRAINC) expressou preocupação com as projeções. Uma simulação da entidade aponta que a retirada de R$ 4,5 bilhões a R$ 8,2 bilhões do FGTS poderia resultar na não criação de 59 mil a 107 mil postos de trabalho no setor habitacional e impedir que 25 mil a 46 mil famílias conquistem sua casa própria.

Adicionalmente, a ABRAINC estima que o Estado pode deixar de arrecadar entre R$ 1,4 bilhão e R$ 2,4 bilhões. A redução de R$ 10,7 bilhões no Produto Interno Bruto (PIB) também é uma projeção, decorrente da alegada “perda de investimento”.

“Para a ABRAINC, a retirada desses recursos do sistema habitacional gera um impacto direto na economia, visto que o setor apresenta um alto efeito multiplicador. Para cada R$ 1 bilhão investido em habitação, geram-se 13 mil empregos e R$ 300 milhões em impostos”, afirmou a entidade em nota.

Críticas à utilização do FGTS como paliativo

Luiz França, presidente da ABRAINC, criticou a medida, afirmando que a utilização do FGTS, um “ativo de longo prazo destinado à conquista da casa própria“, para quitar “juros rotativos de curto prazo” é um paliativo ineficaz.

“Estamos trocando a reserva de uma vida, destinada à conquista da casa própria, por um pagamento imediato de dívidas que tendem a reaparecer. O dinheiro, por si só, não resolve o problema. Utilizar o Fundo, que é um ativo de longo prazo, para quitar juros rotativos de curto prazo é um paliativo que já se mostrou ineficaz em ciclos anteriores, sem alterar a solvência futura do trabalhador”, declarou França.

Incertezas para o setor da construção civil

A Câmara Brasileira da Indústria da Construção (CBIC) também sinalizou preocupação, indicando que a liberação do FGTS pode impactar particularmente a execução do programa Minha Casa, Minha Vida (MCMV). A CBIC já avaliava um cenário de incertezas devido à combinação de juros altos, aumento de custos de obra (agravados pela crise do petróleo), e os impactos da reforma tributária e da discussão sobre a redução da jornada de trabalho.

Reações do mercado e histórico de programas similares

Empresas do setor listadas em bolsa, como MRV, Cury, Direcional e Tenda, optaram por não comentar as medidas. Plano & Plano e Cyrela não responderam até o momento da publicação. O setor imobiliário já havia vivenciado experiências anteriores com o uso do fundo, como o saque de contas inativas e o saque-aniversário.

O setor tem buscado, historicamente, diversificar e ampliar seu financiamento, diminuindo a dependência do Sistema Brasileiro de Poupança e Empréstimo (SBPE). Notícias como o novo modelo de crédito imobiliário para classes médias e o aumento dos limites do Minha Casa, Minha Vida haviam injetado otimismo no segundo semestre de 2025.

FGTS: um pilar do financiamento imobiliário

O FGTS representa a segunda maior fonte de financiamento do setor imobiliário, especialmente para habitação. Em 2025, o fundo foi responsável por R$ 138 bilhões dos R$ 324 bilhões em novos financiamentos. Em 2026, o orçamento total do fundo soma R$ 160,5 bilhões, com R$ 144,5 bilhões destinados à habitação, incluindo R$ 13 bilhões em subsídios para famílias de menor renda.

A ABRAINC reiterou que, embora o otimismo do setor se mantenha fundamentado na queda de juros e na resiliência da demanda, a inclusão do FGTS no Desenrola 2.0 foi uma “surpresa negativa”. A entidade não esperava que a solução para o endividamento “passasse, novamente, pela desidratação de um fundo que é o pilar do crédito imobiliário”.

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