Nova proposta que reduz a jornada de trabalho no Brasil pode gerar elevação de até 11% nos custos de imóveis, alerta setor da construção civil sobre impacto em projetos já vendidos e moradias populares

Setor da construção civil alerta para elevação de custos de até 11% em novos empreendimentos com aprovação da PEC da jornada de trabalho

A possível aprovação de uma Proposta de Emenda à Constituição (PEC) que estabelece a redução da jornada de trabalho de 44 para 40 horas semanais no país projeta um significativo aumento de custos para o mercado imobiliário brasileiro. Estimativas conjuntas da Associação Brasileira de Incorporadoras Imobiliárias (Abrainc) e da Câmara Brasileira da Indústria da Construção (CBIC) apontam para um incremento que pode variar entre 5% e 11% no custo total dos empreendimentos, dependendo do modelo de implementação da medida. O setor já enfrenta um cenário macroeconômico adverso, com juros altos, inflação setorial e escassez de mão de obra, conforme levantamento das entidades Abrainc e CBIC.

A maior preocupação se concentra nos projetos já comercializados. O Brasil possui entre 800 mil e 1 milhão de unidades habitacionais em produção, com preços fixados no segmento popular e correção do saldo devedor nas demais categorias. Um aumento material nos custos de construção desses imóveis resultará diretamente na compressão das margens operacionais das incorporadoras, uma vez que os contratos não permitem o repasse imediato ao comprador final.

A análise setorial considera não apenas os custos diretos da mão de obra nos canteiros, mas também os efeitos em cascata sobre materiais, serviços terceirizados e toda a cadeia de suprimentos. Nikolas Nissel, diretor de Real Estate da Quartzo Capital, ressalta a natureza abrangente do problema.

“O principal impacto será econômico e inflacionário. O mercado ainda não enxerga efeitos estruturais positivos capazes de compensar o aumento imediato de custos.”

O segmento econômico, particularmente o programa Minha Casa Minha Vida, emerge como o mais vulnerável a essa elevação de custos. Por serem comercializados com valores previamente acordados e dependerem estritamente dos tetos e regras de financiamento da Caixa Econômica Federal, a inflação de custos impacta severamente a rentabilidade dos projetos. Abrainc e CBIC estimam um impacto de até 10% no custo consolidado das unidades populares.

Nissel explica a fragilidade desse segmento.

“No segmento econômico, as incorporadoras operam historicamente com margens comprimidas e elasticidade nula para repasse de preço. Sob essa ótica, um incremento dessa magnitude tem o potencial de inviabilizar a equação financeira de diversos projetos.”

Esse cenário adiciona mais pressão a um panorama já estressado. O componente de mão de obra do Índice Nacional de Custo da Construção (INCC) registrou alta de 8,9% nos últimos 12 meses, superando o índice de materiais de construção. Paralelamente, o setor enfrenta uma persistente falta de mão de obra qualificada, o que limita ganhos de eficiência.

O diretor da Quartzo Capital enfatiza a amplitude da discussão.

“A discussão transcende a esfera puramente trabalhista e assume contornos essencialmente financeiros e de estrutura de capital. O mercado já começa a recalibrar os modelos de viabilidade, demanda por capital de giro e arquitetura operacional dos projetos.”

Para manter os atuais patamares de produtividade na construção civil, caso a jornada seja reduzida, seriam necessários cerca de 288 mil novos trabalhadores, de acordo com estimativas da CBIC.

Nissel conclui que a desaceleração já é uma realidade em outros segmentos.

“O segmento de médio padrão, por exemplo, já vinha registrando desaceleração drástica de lançamentos em várias praças porque o retorno dos empreendimentos deixou de ser atrativo frente ao custo de capital.”

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