Gigantes do e-commerce traçam guerra de galpões no Brasil: Mercado Livre, Shopee e Amazon disputam espaços estratégicos para acelerar entregas

Mercado Livre, Shopee e Amazon travam disputa acirrada por galpões logísticos estratégicos em território brasileiro para impulsionar velocidade de entrega e fidelizar clientes, segundo reportagem do InvestNews.

A demanda sem precedentes por agilidade nas entregas impulsiona uma corrida entre Mercado Livre, Shopee e Amazon pela posse de galpões modernos e bem localizados no Brasil. A estratégia visa não apenas aumentar o volume de vendas e a fidelização de clientes, mas também atrair mais vendedores para suas plataformas. A disputa por esses ativos logísticos tem levado as empresas a investir significativamente, com algumas transações marcando recordes no setor.

Simone Santos, sócia-diretora da Binswanger Brazil, destaca a importância estratégica desses imóveis. “Dependendo da localização, aquele galpão é irreplicável. Quem cravou o mercado ali, de fato, vai estar mais bem posicionado”, afirma. Essa percepção de valor impulsiona investimentos robustos, como o da Shopee, que em março assinou o maior contrato de locação já registrado no setor no país, com 220 mil metros quadrados em um empreendimento em obras em Guarulhos. O Mercado Livre também anunciou R$ 500 milhões para um complexo de 300 mil metros quadrados em Jacareí, parte dos R$ 57 bilhões prometidos para investimento no Brasil até 2026. A Amazon, por sua vez, inaugurou um centro de distribuição em Salvador, ampliando entregas no mesmo dia em toda a Bahia e agilizando serviços em Sergipe.

Estratégias distintas para um objetivo comum

O Mercado Livre lidera em área locada, com 1,19 milhão de metros quadrados desde 2025, mais que o dobro da Shopee e seis vezes mais que a Amazon, segundo dados da Binswanger Brazil. No entanto, a empresa foca agora em cobrir locais estratégicos, como demonstra o CD de Jacareí, essencial para entregas em 24 horas em grande parte do território nacional. A Shopee, após um crescimento intenso, reduziu o número de transações, apostando em um único contrato de grande porte. A Amazon, por outro lado, acelerou suas operações no Brasil, com a criação de uma equipe local para decisões de real estate, saindo de 17,5 mil metros quadrados em novas movimentações em 2024 para 140 mil em 2025, com a meta de abrir três novos CDs por semana.

Mercado em ebulição e desafios de expansão

Essa disputa acirrada gerou números inéditos no mercado de galpões logísticos, com uma absorção líquida recorde de 1 milhão de metros quadrados e um aumento no preço médio pedido para R$ 30,62/m². O e-commerce já representa 23% da ocupação em condomínios logísticos de classe A e A+ no Brasil. Verônica Engel, da TRX Investimentos, destaca que os contratos são bem estruturados e com multas rígidas, o que garante rentabilidade e constância nos dividendos para fundos imobiliários como o TRXF, que já tem 20% de seu portfólio neste setor.

A corrida por novos espaços também redesenha a geografia logística do país, com Santa Catarina e Espírito Santo ganhando destaque, além da expansão para o Nordeste e Norte. A Log Commercial Properties, por exemplo, prevê estar presente em todas as capitais nordestinas até o fim de 2026, explorando a demanda reprimida em cidades médias. Simone Santos ressalta a carência de galpões em cidades com mais de 200 mil habitantes, uma oportunidade para grandes empresas.

Contudo, a expansão enfrenta gargalos. A construção de galpões logísticos de classe A é um processo caro e lento no Brasil. A taxa Selic elevada dificulta o financiamento, e a aprovação de terrenos pode levar até três anos. Pressões externas, como o aumento do preço do diesel, elevam os custos de construção, impactando o preço médio de empreendimentos em construção para R$ 39,64/m². Márcio Siqueira, diretor executivo de operações da Log, explica que é necessário repassar o valor de aluguel para viabilizar os novos empreendimentos. Para contornar esses desafios, desenvolvedores buscam permutas e fundos imobiliários adquirem ativos com cotas, evitando crédito caro.

Apesar dos desafios, cerca de 40% do estoque em construção com entrega prevista para 2026 já está pré-locado, demonstrando a força da demanda. Sérgio Fischer, CEO da Log, afirma que o mercado nunca esteve tão profundo e demandador, especialmente por parte dos marketplaces de e-commerce. A grande questão é se o ritmo de construção conseguirá acompanhar o apetite das empresas, evitando que a falta de espaço se torne o próximo grande obstáculo para a logística no país.

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *