Sonho da casa própria fica mais distante para os brasileiros e aluguel dispara no País
O desejo de possuir um imóvel próprio tem se tornado uma meta cada vez mais remota para muitos brasileiros em 2026. Enquanto o sonho da casa própria se afasta, os valores do aluguel disparam em todo o país, refletindo um cenário econômico desafiador para a classe média e para aqueles que buscam estabilidade financeira através da aquisição de um bem durável. A dificuldade em poupar para a entrada, somada ao custo de vida e ao endividamento, tem levado uma parcela crescente da população a permanecer no mercado de locação, muitas vezes com orçamentos cada vez mais apertados.
Especialistas apontam que a conjuntura atual, marcada por inflação persistente, altas taxas de juros e um mercado de trabalho aquecido, mas com poder de compra em declínio, acentua essa tendência. Historicamente, a compra de imóveis representa um marco de segurança e patrimônio, mas a realidade econômica atual impõe barreiras significativas. O professor particular de inglês Rafael Bezerra, que mora de aluguel em São Paulo, exemplifica essa situação. Aos 44 anos, ele almeja a casa própria, mas o alto custo de entrada e o peso de um financiamento longo o impedem de concretizar o objetivo, mesmo pagando um valor considerado baixo para o mercado atual por seu apartamento de 40m².
Aumento expressivo na procura por imóveis alugados
Os dados confirmam a crescente predominância do aluguel na economia habitacional brasileira. Entre 2016 e 2025, o número de imóveis locados saltou de 12,2 milhões para 18,9 milhões, um aumento expressivo de cerca de 55%, conforme informações da Pnad Contínua. Paralelamente, a proporção de domicílios próprios diminuiu de 66,8% para 60,2% no mesmo período, mesmo com um aumento de 18,9% na construção de novas moradias. Essa realidade contrasta com o desejo da maioria: um estudo da Ipsos revelou que 76% dos inquilinos desejam comprar um imóvel, embora 36% não acreditem que conseguirão realizar esse sonho.
Desafios para a classe média: entrada, financiamento e endividamento
A classe média, em particular, encontra-se em uma posição delicada. Apesar de aumentos salariais, a inflação que afeta este grupo é mais elevada, especialmente em serviços, corroendo o poder de compra. O economista André Sacconato, da FIPE/USP, explica que a variação de preços para a classe média supera o crescimento da renda nominal, gerando a sensação de que o dinheiro é insuficiente. Acumular os 20% a 30% necessários para a entrada de um imóvel é um obstáculo considerável. Além disso, as taxas de financiamento imobiliário acima de 10% ao ano e as rigorosas análises de crédito tornam o processo ainda mais árduo.
O endividamento é outro fator crucial. Dados do Serasa indicam que em 2026 o Brasil alcançou 81,7 milhões de inadimplentes, um aumento de 38,1% desde 2016, com um crescimento de 176% no valor das dívidas no mesmo período. Essa situação financeira precária dificulta a capacidade de poupança e a obtenção de crédito para a compra de imóveis.
O papel do Minha Casa, Minha Vida e a perda de espaço da classe média
Em contrapartida, o programa Minha Casa, Minha Vida tem sido um importante suporte para a população de menor renda, com expansão para famílias com rendas de até R$ 13 mil. O programa oferece juros mais baixos e acesso facilitado ao crédito, impulsionando o segmento econômico. Em São Paulo, por exemplo, 54,3% das unidades residenciais lançadas se enquadram no programa, um salto significativo desde 2016. Essa expansão atraiu incorporadoras que antes focavam na classe média.
Enquanto isso, a classe média perde espaço. Alberto Ajzental, da FGV, destaca que os recursos da poupança (SBPE), tradicionalmente usados para financiar imóveis para essa faixa de renda, estão perdendo participação. Isso torna o crédito mais escasso e caro para quem não se beneficia dos subsídios do Minha Casa, Minha Vida. Dados da Abecip mostram uma retração no número de unidades financiadas via SBPE desde o pico em 2021, influenciada pelo custo de captação mais elevado de fontes como as LCIs. A Abecip, contudo, projeta resiliência e crescimento de 16% para o crédito imobiliário em 2026, com a criação da Faixa 4 do MCMV como um avanço.
O aluguel: uma alternativa cada vez mais custosa
Para a classe média, a locação também se tornou uma opção onerosa. O Índice Fipezap aponta que o aluguel ficou 8,63% mais caro nos últimos 12 meses, superando a inflação oficial (IPCA) e o IGP-M. Paula Reis, economista do Grupo OLX, observa que a alta demanda em regiões valorizadas eleva os preços, e proprietários recuperam rendimentos perdidos. A combinação de gastos com aluguel e alto endividamento familiar compromete a situação financeira, tornando a locação menos sustentável.
Uma pesquisa da FC Análise indica que a classe B (renda entre R$ 4.607,01 e R$ 16.186,00) é o maior grupo no mercado de aluguel, respondendo por 49% das propostas em 2025. Esse público busca previsibilidade e flexibilidade, mas o custo da moradia tem se tornado um fardo. Carol Herling, consultora de comunicação, relata o aumento de despesas com saúde, alimentação e outros itens essenciais, que impactam diretamente a capacidade de arcar com aluguéis elevados, como os R$ 4,2 mil que paga em Higienópolis, São Paulo, sem contar o condomínio.
Investidores e o novo modelo de locação
A alta demanda por aluguel e o encarecimento da locação têm atraído investidores. O aluguel voltou a ser visto como fonte de renda recorrente, com empresas desenvolvendo projetos específicos para locação, como os empreendimentos multifamiliares. Empresas como Vila 11 e Greystar estão apostando neste modelo, oferecendo unidades compactas, funcionais e bem localizadas para locação, visando tanto alta renda quanto média renda. Jorge de Moraes, da Vila 11, aponta o aluguel como uma saída eficiente pela ausência de entrada e dívidas de longo prazo, além da flexibilidade em um mercado de trabalho mais móvel.
Medidas governamentais e a busca por soluções
O governo federal tem buscado mitigar os desafios habitacionais. O Programa Reforma Casa Brasil e a nova política de crédito habitacional da Caixa, que permite financiamento de até 80% do valor do imóvel, são exemplos. Houve também o aumento do teto de financiamento pelo SFH e a expansão do Minha Casa, Minha Vida com a Faixa 4, destinada a famílias com renda mensal de R$ 8,6 mil a R$ 12 mil, com financiamento de até R$ 600 mil a taxas de 10% ao ano. Embora essas iniciativas sejam consideradas positivas, especialistas como Alberto Ajzental avaliam que não são suficientes para reverter o quadro geral. A falta de segurança financeira básica e o foco em endividamento para aumentar a demanda são pontos criticados. A aspiracional da compra está travada, e a locação, embora ofereça flexibilidade, tem se tornado cada vez mais um peso financeiro.
