O mercado imobiliário vive um dilema crescente: enquanto empreendimentos compactos, como os studios, ganham espaço em regiões centrais, impulsionados por uma nova demanda urbana, o debate sobre diversidade habitacional e planejamento urbano se intensifica. A questão central é se essa escalada de unidades pequenas atende às reais necessidades da população e como os incorporadores podem assumir uma função social mais ativa na construção de cidades verdadeiramente inclusivas.
Maria Eugênia Fornea, CEO da Weefor Inc. e Presidente da Ademi PR, em entrevista ao podcast Modo Avião, destaca que o incorporador não é apenas um construtor, mas um agente direto na formação das cidades. Ela defende uma atuação mais alinhada às necessidades sociais e urbanas, questionando se o atual foco em unidades compactas reflete a demanda real ou apenas uma tendência de mercado.
O boom dos studios e a demanda transitória
O crescimento dos empreendimentos de studios em áreas centrais, embora responda a uma demanda por habitação transitória e se alinhe a um estilo de vida contemporâneo, exige uma análise mais profunda. Maria Eugênia Fornea ressalta a importância de entender a demanda real por esse tipo de imóvel.
“O incorporador constrói a cidade e tem uma função social”, afirma. Ela explica que, apesar de o boom dos studios ter uma razão de existir e atender a uma parcela específica do mercado, é fundamental questionar qual o perfil de morador que de fato se beneficia a longo prazo.
Diversidade habitacional para cidades inclusivas
Para evitar processos de exclusão territorial, a produção imobiliária precisa abraçar a diversidade habitacional, contemplando diferentes perfis de renda e permanência urbana. A especialista aponta que a definição dos empreendimentos muitas vezes ocorre em ciclos de planejamento curtos e sem um aprofundamento adequado sobre o contexto urbano e a realidade dos futuros moradores.
“A gente tem que sempre estar olhando para a renda, quem pode comprar, como vai poder comprar e qual produto se adequa, com o objetivo de gerar realmente uma cidade que acolha as pessoas e não torne uma cidade mais restritiva para poucas rendas”, defende Fornea.
A definição dos empreendimentos ainda ocorre em ciclos muito curtos de planejamento e pouco aprofundamento sobre o contexto urbano e a realidade da população que deve habitar determinado local.
A Weefor Inc. tem buscado romper com essa prática através de metodologias próprias. A empresa desenvolveu ações de coleta de dados urbanos e interação comunitária antes mesmo da definição dos projetos. O modelo Weefor ECO, por exemplo, utiliza ações culturais e pesquisas para mapear comportamentos e necessidades dos moradores do entorno.
“A gente usa da criatividade para coletar dados de uma forma menos chata e conseguir pegar essas percepções mais subjetivas das pessoas”, explica Fornea sobre as pesquisas qualitativas.
Retrofit e habitação de interesse social como estratégias
O retrofit surge como uma estratégia promissora para aumentar a diversidade habitacional em centros urbanos e combater o esvaziamento dessas regiões. Um exemplo prático é a revitalização do Edifício Brasil, em Curitiba, que passará de 11 apartamentos de 110m² para unidades de 40 a 55m², visando melhor adequação de fit e renda.
O fortalecimento de políticas voltadas à habitação de interesse social em grandes centros também é crucial. Maria Eugênia, que assume a presidência da Ademi PR em 2026/2027, informa que o grupo tem atuado em discussões técnicas com o poder público para a revisão de regras urbanísticas.
Ela lamenta a baixa produção de imóveis do programa Minha Casa, Minha Vida em Curitiba, que tem levado ao deslocamento de moradores para municípios vizinhos. “Hoje, a produção de imóveis Minha Casa, Minha Vida em Curitiba é inferior a 7% e as pessoas estão sendo empurradas para a região metropolitana. Isso é caro para o município e a qualidade de vida das pessoas despenca”, alerta.
Sustentabilidade intrínseca ao negócio
Independentemente do padrão dos imóveis, boas práticas ambientais e sociais devem ser intrínsecas às empresas e estruturalmente implementadas nos empreendimentos. Para Maria Eugênia Fornea, a sustentabilidade não é um diferencial, mas o mínimo esperado.
“A gente acredita que sustentabilidade é o mínimo. Não precisamos de certificação para fazer as coisas certas”, conclui.
