Polícia federal aprofunda investigações em escândalo financeiro que abala o Banco de Brasília, revelando intrincado esquema de vantagens indevidas e transações milionárias com carteiras de crédito fictícias
A Polícia Federal (PF) prendeu Paulo Henrique Costa, ex-presidente do Banco de Brasília (BRB), em uma operação realizada na quinta-feira, 16 de abril de 2026. A ação se deu em um edifício na capital federal, Brasília, e culminou com a transferência do executivo para a Superintendência da Polícia Federal, e, no fim da tarde, para a Penitenciária da Papuda. Ele é acusado de ter recebido seis imóveis de luxo, avaliados em R$ 146,5 milhões, como suposta propina do banqueiro Daniel Vorcaro, responsável pelo Banco Master, conforme apuração do G1.
Esta etapa da investigação representa um aprofundamento da fase inicial da operação “Compliance Zero”, que já havia resultado no afastamento de Costa da presidência do BRB em novembro de 2025, ocasião em que foi alvo de mandados de busca e apreensão. A autorização para a prisão partiu do ministro André Mendonça, relator do caso no Supremo Tribunal Federal (STF).
Relatório da Polícia Federal enviado ao ministro Mendonça aponta a existência, em tese, de uma complexa engrenagem ilícita. O esquema teria sido concebido para fabricar, vender e ceder carteiras de crédito fictícias do Banco Master ao BRB, gerando um impacto patrimonial e institucional significativo para a estatal. A polícia afirma que a estrutura foi erguida para disfarçar a fragilidade do modelo de negócios do Banco Master, que não possuía lastro real suficiente para sustentar a dimensão das cessões realizadas.
Em 2025, o BRB chegou a negociar a aquisição do Banco Master, mas a transação foi rejeitada pelo Banco Central (BC), que posteriormente decretou a liquidação do banco de Daniel Vorcaro em novembro do mesmo ano. O BRB adquiriu R$ 12 bilhões em carteiras de crédito que, segundo as investigações, careciam de garantias financeiras sólidas.
A Polícia Federal indica que Paulo Henrique Costa foi uma peça central para a concretização dessas aquisições fraudulentas. Em troca de seu papel, ele teria recebido uma vantagem indevida que consistiu nos seis imóveis de alto padrão localizados em São Paulo e Brasília, cujo valor total chega a R$ 146,5 milhões. Desse montante, cerca de R$ 75 milhões já teriam sido efetivamente pagos.
Para ocultar o verdadeiro proprietário dos imóveis, a estratégia, de acordo com a Polícia Federal, envolveu o uso de empresas de fachada, fundos da Reag Investimentos e interpostas pessoas, conhecidas como laranjas. A decisão judicial que fundamentou a operação menciona um “cronograma pessoal” do ex-presidente do BRB, que detalhava uma lista de empreendimentos. Um desses bens é uma unidade em um prédio situado na mesma região onde Costa reside, em Brasília, com apartamentos comercializados por mais de R$ 4 milhões. A maioria das propriedades de luxo, contudo, está em bairros nobres de São Paulo, incluindo apartamentos que podem atingir 700 m².
O ministro André Mendonça, em sua decisão, destacou a gravidade da acusação contra Paulo Henrique Costa:
“Não se limita a uma negligência administrativa ou deficiência de governança, mas alcança, em tese, a adesão consciente ao arranjo criminoso.”
A operação de quinta-feira trouxe à tona trechos de mensagens trocadas entre Daniel Vorcaro e Paulo Henrique Costa. Em uma dessas comunicações, sem data específica, o então presidente do BRB escreveu ao banqueiro, evidenciando uma parceria e alinhamento:
“Amigo, obrigado pela conversa de hoje. A cada passo, o caminho está mais claro e estou mais empolgado com o que vamos construir. Além disso, dou muito valor ao alinhamento pessoal. E acho que estamos bem alinhados em relação ao trabalho, visão de mundo e perfil. Estou trabalhando para lançar a operação amanhã ou, no mais tardar, na segunda-feira. O governador me pediu que preparasse um material para a argumentação dele, porque vamos receber críticas.”
Vorcaro, por sua vez, respondeu a Costa, reforçando o entrosamento e a promessa de uma vantagem:
“Fala amigo, ótimo, também estou empolgado. Vou alinhar tudo com Daniel. Vou te passar uma pessoa que te mostrará o apartamento.”
O governador citado nas mensagens é Ibaneis Rocha, do MDB, que esteve à frente do Executivo do Distrito Federal até março de 2026. O Governo do Distrito Federal é o principal acionista do Banco de Brasília.
Em paralelo, a Polícia Federal também prendeu em São Paulo o advogado Daniel Monteiro. A PF o apontou como atuante nas transações fraudulentas entre o BRB e o Banco Master, além de ter participado do esquema de ocultação de Paulo Henrique Costa como beneficiário dos imóveis, recebendo para isso R$ 86 milhões. A investigação revela que Vorcaro teria obtido informações sobre um inquérito sigiloso que apurava o caso e instruiu seu operador jurídico, Daniel Monteiro, a “travar tudo”, em referência aos pagamentos destinados a Paulo Henrique.
Segundo a Polícia Federal, há “fortes indícios de que o presidente da estatal do Distrito Federal, o investigado Paulo Henrique, atuava como um verdadeiro mandatário de Daniel Vorcaro no âmbito do BRB”. Atualmente, o BRB busca um empréstimo de R$ 6,6 bilhões para cobrir o vultoso prejuízo provocado pela aquisição dos créditos podres do Banco Master. Além das prisões, a operação resultou no cumprimento de sete mandados de busca e apreensão no Distrito Federal e em São Paulo. Os investigados podem ser indiciados por gestão fraudulenta de instituição financeira, corrupção, lavagem de dinheiro e organização criminosa.
