Como o tamanho médio dos apartamentos mudou ao longo dos anos no Brasil

Você já parou para pensar se os apartamentos de hoje são menores do que eram antigamente? A resposta curta e direta é: sim, em média, eles encolheram. Essa mudança no tamanho das unidades habitacionais no Brasil é um reflexo de um complexo cenário demográfico, econômico e social que vem se desenrolando ao longo das décadas.

A pesquisa recente do DataZAP, divulgada pelo Metro Quadrado, aponta uma tendência clara: o tamanho médio dos apartamentos para locação caiu pelo segundo ano consecutivo. Em 2025, a metragem média ficou em 58 m², uma redução significativa em comparação aos 67 m² de 2024 e aos 71 m² de 2023. Mas o que explica essa diminuição no espaço que chamamos de lar?

As causas por trás da redução do espaço

Diversos fatores interligados contribuem para essa nova realidade imobiliária. Um dos principais é a mudança no perfil das famílias brasileiras. Dados do último Censo revelam que a média de indivíduos por lar caiu de 3,7 em 2010 para 2,8 em 2022. Paralelamente, o número de domicílios ocupados por uma única pessoa cresceu, alcançando quase 19% no país. Essa transformação demográfica naturalmente demanda unidades habitacionais menores.

O fator econômico também desempenha um papel crucial. Em áreas urbanas valorizadas, com infraestrutura consolidada, o metro quadrado se tornou mais caro. Diante disso, reduzir a metragem dos apartamentos surge como uma estratégia eficaz para manter os custos de aluguel acessíveis ao bolso do consumidor. As incorporadoras, atentas a essa demanda, passaram a priorizar projetos mais compactos, alinhando a oferta ao poder de compra e às necessidades de quem deseja morar bem localizado.

A dinâmica do mercado de trabalho, com a retomada do trabalho presencial, também influencia essa tendência. Taiane Martins, gerente de inteligência imobiliária do Grupo OLX, destaca que isso impulsiona a busca por moradias em áreas centrais e bem localizadas. Nessas regiões, o estoque imobiliário historicamente é composto por unidades de menor porte, o que se encaixa perfeitamente com a atual necessidade de otimização de espaço e custo.

O perfil do locatário e suas prioridades

Interessantemente, a pesquisa do DataZAP também revela detalhes sobre quem são os principais locatários e o que eles buscam. A maioria é composta por mulheres entre 42 e 61 anos, pertencentes à classe B, na maioria casadas ou em união estável e com filhos. Mesmo com a disposição de abrir mão de metros quadrados, esses locatários não deixam de lado o conforto e a funcionalidade do imóvel.

Itens como imóveis mais arejados (procurados por 77% dos entrevistados) e ambientes bem divididos (priorizados por 69%) ganham destaque. A presença de varanda também é um fator relevante na decisão de locação para 64% dos participantes.

Evolução do design e das áreas comuns ao longo das décadas

Para entender completamente a trajetória do tamanho dos apartamentos, é importante olhar para trás. Até meados do século XX, as casas eram a moradia predominante, e os prédios de apartamentos eram raros. A partir da década de 1950, com o crescimento das cidades e a falta de espaço nas regiões centrais, as classes mais altas começaram a migrar para os apartamentos. Conforme citado pelo arquiteto Olair de Camillo em uma matéria do Blog Bossa Nova Sotheby’s, os primeiros apartamentos de alto padrão eram projetados para replicar o conforto das casas, com pé-direito alto, cômodos amplos e dependências completas para empregados, sendo descritos como “grandes casas empilhadas”.

Nas décadas de 50 e 60, a prioridade era o espaço interno. As plantas eram retangulares, com janelas generosas para garantir iluminação e ventilação. As áreas comuns, se existiam, eram mínimas.

A década de 70 viu uma leve redução no pé-direito para otimizar custos de construção, e os cômodos, embora ainda amplos, começaram a ficar ligeiramente menores. Janelas padronizadas e esquadrias de alumínio se popularizaram. Surgiu uma tímida preocupação com áreas comuns, como quadras e parquinhos.

Nos anos 80, a configuração mudou com o surgimento de apartamentos com mais de uma suíte e quatro ou mais dormitórios. As varandas, ainda pequenas, começaram a aparecer, assim como os conceitos de “closet”. As áreas comuns foram sendo aprimoradas, e as dimensões dos cômodos continuaram a diminuir, mas sem comprometer o conforto.

A década de 90 trouxe as primeiras varandas gourmet e um aumento no número de suítes e banheiros. A extinção das dependências completas de empregados refletiu a mudança nos hábitos sociais. Grandes condomínios com múltiplas torres, áreas comuns bem equipadas e um foco crescente em segurança (guarita, câmeras) tornaram-se um diferencial.

No início dos anos 2000, as supervarandas gourmet viraram um atrativo, e em algumas cidades, esses espaços não eram computados como área construída, beneficiando incorporadoras. Áreas comuns se expandiram com pistas de caminhada e espaços para animais de estimação.

O apartamento moderno: eficiência e serviços

A partir de 2010, a redução no tamanho das famílias, o aumento de pessoas morando sozinhas e a maior longevidade da população consolidaram a tendência de apartamentos menores, mas não menos sofisticados. A sofisticação se manteve, focando em cozinhas gourmet, espaços coletivos como lavanderias e coworking, salões de festa equipados e alta tecnologia embarcada nos imóveis (wi-fi, fechaduras biométricas).

A boa localização se tornou ainda mais fundamental para unidades compactas. O foco é em eficiência de layout e em imóveis que, mesmo menores, ofereçam uma boa qualidade de vida e muitos serviços à disposição do morador. O que se percebe é uma busca por conforto e praticidade, mesmo em metragens reduzidas.

O futuro do morar: o que esperar?

A tendência de apartamentos mais compactos, especialmente em grandes centros urbanos, parece consolidada. A busca por praticidade, localização e custo-benefício, aliada a mudanças demográficas e sociais, molda o mercado imobiliário. No entanto, a demanda por qualidade de vida, funcionalidade e áreas comuns que agreguem valor ao dia a dia do morador continua forte.

As áreas comuns voltadas à praticidade, como minimercados (33% das respostas), mensagerias (32%) e espaços pet (29%), ganham espaço. Em contrapartida, estruturas de lazer mais tradicionais, como salão de festas, churrasqueira, playground e piscina externa, já não são mais prioridade para uma parcela significativa dos locatários. O foco mudou do “extravagante” para o “essencial e funcional”.

Portanto, a evolução do tamanho médio dos apartamentos no Brasil é uma história de adaptação contínua às necessidades e desejos da sociedade. Enquanto as metragem tendem a se otimizar, a busca por um lar que ofereça conforto, funcionalidade e bem-estar permanece inalterada.

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