A rentabilidade do Fundo de Garantia do Tempo de Serviço (FGTS) é um tema que frequentemente gera debates e dúvidas entre os trabalhadores brasileiros. Muitos se perguntam se os rendimentos obtidos com os depósitos no fundo realmente compensam ou se seria mais vantajoso sacar o dinheiro e investir em outras aplicações. A resposta, como muitas vezes acontece em finanças, não é unívoca e depende de uma análise mais profunda.
Em termos práticos, a distribuição de resultados do FGTS tem se mostrado uma adição significativa à remuneração tradicional do fundo, que é composta pela Taxa Referencial (TR) mais 3% ao ano. Essa distribuição, iniciada em 2016, tem elevado a rentabilidade acumulada para os cotistas, muitas vezes superando a inflação. Em 2023, por exemplo, a distribuição de R$ 12,7 bilhões beneficiou os cotistas com contas vinculadas ao FGTS em 31 de dezembro de 2022, elevando a rentabilidade geral.
Entendendo a rentabilidade do FGTS
Por muitos anos, a tese predominante era a de que o FGTS remunerava mal os trabalhadores, especialmente quando comparado a outras opções de investimento disponíveis no mercado financeiro. No entanto, os números mais recentes vêm questionando essa visão. De acordo com o SECOVI-SP, desde 2016, quando iniciou a distribuição dos resultados, a remuneração acumulada do cotista do Fundo foi de 50%, superando a inflação acumulada no período, que foi de 44%. Isso demonstra que, para muitos, o FGTS se tornou uma aplicação que acompanha ou até ultrapassa a inflação.
É crucial entender que a rentabilidade do FGTS não se resume apenas ao rendimento nominal dos depósitos. O fundo possui um papel social e econômico fundamental no Brasil, financiando projetos de habitação, saneamento básico, mobilidade e infraestrutura urbana. Esses investimentos, embora não se reflitam diretamente no extrato individual do cotista, beneficiam a população como um todo e contribuem para o desenvolvimento do país, gerando empregos e melhorando a qualidade de vida.
As diferentes modalidades de saque e seus impactos
A legislação brasileira prevê diferentes formas de acesso ao saldo do FGTS, cada uma com suas particularidades e implicações. Compreender essas modalidades é essencial para tomar a decisão mais acertada.
Saque de até R$ 500
Essa modalidade, implementada em anos anteriores, permitia o saque de até R$ 500 de contas ativas e inativas. Para trabalhadores com saldo de até um salário mínimo, o governo chegou a autorizar o saque integral. O principal benefício dessa liberação é a possibilidade de obter um dinheiro rápido para necessidades imediatas, sem a perda do direito ao saque-rescisão em caso de demissão sem justa causa. Contudo, é uma retirada pontual e, para quem tem reservas financeiras, pode não ser a opção mais vantajosa a longo prazo.
Saque-aniversário
O saque-aniversário é uma opção mais recente que permite ao trabalhador retirar uma parte do saldo do FGTS anualmente, no mês de seu aniversário. O percentual a ser sacado varia de acordo com o saldo total da conta. A grande contrapartida dessa modalidade é a perda do direito de sacar o saldo integral da conta em caso de demissão sem justa causa, restando apenas a multa de 40%. É possível retornar à modalidade saque-rescisão, mas isso só pode ser feito após dois anos da adesão ao saque-aniversário. Essa opção pode ser interessante para quem busca uma renda extra anual e não tem receio de abrir mão do saque total em caso de demissão.
Análise de especialistas: quando vale a pena sacar?
Educadores financeiros e especialistas oferecem diferentes perspectivas sobre a decisão de sacar ou não o FGTS, dependendo do perfil e da situação de cada indivíduo. O G1, em uma matéria que aborda o tema, destaca que a resposta varia de acordo com a situação de cada pessoa.
Para quem já possui reserva financeira
Se você já tem uma reserva de emergência e investe regularmente, a recomendação geral é não sacar o FGTS. Conforme aponta o educador financeiro Reinaldo Domingos, o FGTS, ao distribuir 100% do lucro, pode render valores próximos à Taxa Selic, ou até superiores. Sacar esse dinheiro pode significar perder uma aplicação que já oferece uma rentabilidade atrativa e isenta de imposto de renda.
Para quem não tem reserva financeira
Para quem está começando ou não possui uma reserva de emergência, o FGTS pode servir como essa própria reserva. Sacar o dinheiro para gastos imediatos, sem um planejamento claro, pode ser arriscado. A sugestão é manter o valor no fundo, aproveitando sua rentabilidade e a proteção contra imprevistos.
Pessoas com financiamento imobiliário
Quem possui um financiamento da casa própria em andamento deve ter cautela com os saques. O uso do FGTS para abater o saldo devedor ou para o pagamento de prestações é um benefício significativo. Sacar o FGTS nesse cenário pode comprometer a saúde financeira do empréstimo e tornar o pagamento das parcelas mais oneroso.
Trabalhadores inseguros no emprego
A insegurança no emprego é um fator a ser considerado. Optar pelo saque-aniversário, por exemplo, pode ser desvantajoso caso ocorra uma demissão inesperada, pois o trabalhador não terá acesso ao saldo total da conta. Manter o FGTS na modalidade de saque-rescisão garante essa proteção financeira em um momento de instabilidade.
Para quem tem dívidas
A situação de endividamento exige uma análise cuidadosa. Se o valor do FGTS for suficiente para quitar integralmente uma dívida com juros altos (como cheque especial ou cartão de crédito), o saque pode ser uma excelente estratégia para economizar com juros e melhorar a saúde financeira. Caso o valor não seja suficiente para a quitação total, pode ser mais prudente manter o dinheiro no fundo e negociar a dívida.
Quem não tem dívidas
Para quem está com as finanças em ordem, o FGTS pode ser visto como um complemento para a aposentadoria. Utilizar uma parte do saldo, especialmente os valores menores obtidos em contas inativas ou o saque de R$ 500, para iniciar investimentos de longo prazo pode ser uma excelente ideia para construir patrimônio futuro.
FGTS como ferramenta de desenvolvimento e segurança
É fundamental reconhecer que o FGTS transcende a ideia de uma simples poupança. Ele representa uma ferramenta histórica de proteção ao trabalhador e de fomento ao desenvolvimento socioeconômico do Brasil. Sua estrutura, com mecanismos de distribuição de resultados e a possibilidade de utilização em momentos cruciais da vida, como na compra da casa própria ou em caso de demissão, o configuram como um benefício robusto.
A discussão sobre a vantajosidade dos rendimentos do FGTS deve sempre considerar o cenário completo: a rentabilidade nominal, o papel social do fundo, as diferentes modalidades de saque e as particularidades financeiras de cada indivíduo. Em 2026, o Fundo de Garantia do Tempo de Serviço continua a ser um pilar importante para o trabalhador e para a economia brasileira, com um desempenho que, quando analisado de forma integral, apresenta seus méritos e atratividade.
