Como as regras de condomínio impactam seu dia a dia e o que verificar antes de assinar contrato

A vida em condomínio, embora ofereça diversas comodidades e segurança, é regida por um conjunto de regras que impactam diretamente o cotidiano dos moradores. Desde o horário permitido para realizar obras até a forma como áreas comuns podem ser utilizadas, tudo isso está detalhado em documentos como a convenção e o regimento interno. Compreender a fundo essas normas e saber o que verificar antes de firmar qualquer contrato é crucial para evitar conflitos e garantir a tranquilidade de todos.

Muitas vezes, a assinatura de contratos, seja para prestação de serviços, aquisição de bens ou locação de espaços, envolve valores que afetam diretamente o bolso de todos os condôminos. Por isso, um olhar atento aos detalhes, especialmente às cláusulas e obrigações contratuais, pode prevenir dores de cabeça futuras e assegurar que o dinheiro da coletividade seja bem empregado. Este artigo guiará você através desses pontos essenciais.

A importância de contratos bem definidos no condomínio

O ditado popular “o combinado é o combinado e não sai caro” resume a essência da importância de ter contratos claros para as diversas atividades de um condomínio. Um documento bem elaborado funciona como um guia, estabelecendo as diretrizes para a prestação de serviços ou condições de compra. Sem essa formalização, situações inesperadas podem se tornar grandes problemas para o síndico e para toda a comunidade condominial.

Conforme explica Gabriel Souza, diretor da administradora Prop Starter, a informalidade nas relações profissionais pode levar a situações delicadas. Ele enfatiza a importância de nunca assinar um contrato sem antes passá-lo pelo jurídico ou por um advogado. Essa precaução é vital, pois mesmo com todos os cuidados, podem surgir situações que contrariam o acordado, gerando prejuízos. A falta de atenção aos detalhes em contratos que envolvem prazos e valores significativos pode, de fato, se transformar em um grande problema financeiro e administrativo para o condomínio.

Rodrigo Karpat, advogado especialista em condomínios, corrobora essa visão com um exemplo prático: um serralheiro que prestava serviços sem contrato sofreu um acidente e conseguiu uma indenização vitalícia paga pelo condomínio. Situações como essa demonstram que a ausência de um contrato formalizado não só onera o condomínio mensalmente, mas também pode impactar negativamente na valorização das unidades imobiliárias. O síndico, como responsável civil e criminalmente pelo condomínio, deve ter a máxima cautela.

Cláusulas essenciais em qualquer contrato condominial

Independentemente da natureza do contrato, algumas cláusulas são fundamentais para garantir a segurança jurídica e a clareza das obrigações. Analisar estes pontos antes de assinar é um passo indispensável:

  • Qualificação das partes: Devem constar todos os dados para identificar claramente quem está firmando o acordo, garantindo que a pessoa possui autoridade legal para representar a empresa ou o condomínio. Isso inclui a verificação de documentos como contrato social e ata de eleição do síndico.
  • Escopo do serviço: Detalha de forma minuciosa o que será executado, como será feito e quais os resultados esperados. Para terceirização de mão de obra, por exemplo, deve especificar número de funcionários, horas trabalhadas, qualificação, etc.
  • Prazo e execução: Estabelece as etapas da prestação de serviço ou compra, com prazos claros para cada fase. Em obras, é recomendável atrelar o pagamento às entregas parciais para evitar que o serviço seja pago integralmente antes da conclusão.
  • Forma de pagamento: Define como e quando os pagamentos serão realizados (boleto, transferência, etc.), incluindo dados bancários e prazos.
  • Penalidades: Descreve as sanções para quem descumprir as obrigações. Conforme o Código Civil e o Código de Defesa do Consumidor, as multas devem ser claras e proporcionais, inibindo infrações e restabelecendo o equilíbrio contratual.
  • Rescisão: Explica como o contrato pode ser finalizado, seja por cumprimento das obrigações, justa causa (descumprimento) ou sem justa causa, prevendo multas quando aplicável.

Service Level Agreement (SLA) e sua relevância

O SLA (Service Level Agreement), ou Acordo de Nível de Serviço, é uma cláusula cada vez mais comum e importante em contratos com condomínios. Ela estabelece prazos de atendimento para situações específicas, sendo particularmente útil para empresas de segurança e portaria remota.

Com um SLA bem definido, o síndico tem a segurança de saber em quanto tempo será atendido em caso de problemas, como falhas em equipamentos. Delson Ferreira, diretor da White Proteção e Segurança, ressalta que o SLA permite mensurar a qualidade do serviço, identificar pontos de melhoria e até mesmo negociar descontos caso os prazos não sejam cumpridos.

Cláusulas específicas para diferentes tipos de contratos

Além das cláusulas gerais, alguns tipos de contratações exigem atenção a detalhes específicos:

Empresas terceirizadoras de mão de obra

É fundamental incluir cláusulas que obriguem a empresa a comprovar o pagamento de direitos trabalhistas de seus funcionários. Isso ajuda a evitar ações judiciais trabalhistas contra o condomínio, como aponta o advogado Alexandre Marques. O contrato deve garantir que a empresa utilize funcionários próprios, realize reciclagem periódica e que os colaboradores façam uso de Equipamentos de Proteção Individual (EPIs).

Empreiteiras

Para obras e benfeitorias, é crucial que o contrato proíba a empresa de realizar factoring (venda de créditos de vendas a terceiros) ou de “vender” partes da obra para outras companhias. A vinculação do recebimento de pagamento às entregas parciais da obra e a exigência de um cronograma detalhado são essenciais para o síndico acompanhar o andamento. Dependendo do valor, um seguro beneficiando o condomínio pode ser recomendado. Além disso, o contrato deve garantir que a empresa pague todos os encargos trabalhistas, pois, em caso de inadimplência, o condomínio pode ser responsabilizado.

Empresas de portaria remota

Contratar serviços de portaria remota exige cuidados específicos. O contrato deve garantir que a empresa gerencie os dados do condomínio, ofereça suporte 24h e seja responsável pela manutenção dos equipamentos. Evitar cláusulas de venda casada, como a cobrança de um seguro extra para o condomínio, e garantir que os equipamentos não possam ser retirados em caso de rescisão são pontos importantes, conforme ressaltam Gabriel de Souza e Delson Ferreira.

Empresas de manutenção de elevadores

Ao contratar a manutenção de elevadores, é importante verificar como funciona a rescisão contratual. Geralmente, há uma multa proporcional ao tempo restante do contrato, mas seu valor não deve ser superior ao montante a ser pago. Se o contrato incluir peças, é fundamental que a origem delas esteja discriminada (fabricante ou genéricas).

Corretoras de seguro

O seguro condominial é uma obrigação legal do síndico, conforme o artigo 1.346 do Código Civil. A complexidade dos contratos de seguro, que podem atingir 120 páginas, exige a consultoria de um profissional. É vital entender as coberturas, especialmente as de impacto, que podem ser mal interpretadas. Levar o corretor para a assembleia pode esclarecer dúvidas dos moradores antes de alterações na apólice. A diferença entre as apólices em termos de valores e coberturas deve ser bem compreendida para evitar surpresas.

O que verificar antes de assinar um contrato de administração

A administradora de condomínios é uma parceira fundamental para a gestão condominial. Contudo, antes de fechar negócio, alguns pontos devem ser rigorosamente verificados:

  • Histórico da empresa: Pesquise referências, tempo de mercado, avaliações de clientes e possíveis processos. Verifique a qualificação dos profissionais.
  • Preços e custo-benefício: Cote com diferentes empresas e desconfie de valores muito abaixo da média. A transparência é essencial para a aprovação dos condôminos.
  • Cobranças inesperadas: Analise cada item do contrato com calma para identificar taxas extras não previstas no escopo inicial.
  • Cláusulas abusivas: Envie o contrato para um consultor especializado para identificar e sugerir a revisão de cláusulas que possam gerar dupla interpretação ou serem desfavoráveis. A flexibilidade da empresa em renegociar é um bom indicativo.
  • Suporte oferecido: Verifique os canais de comunicação e a disponibilidade de atendimento, incluindo fins de semana e feriados, pois imprevistos podem ocorrer a qualquer momento.
  • Conexão com a tecnologia: Priorize administradoras que utilizam sistemas modernos para otimizar processos, como emissão de boletos online e segunda via facilitada.

A escolha de uma boa administradora, atenta a essas dicas, aumenta significativamente as chances de uma gestão condominial bem-sucedida, atendendo às reais necessidades do condomínio e proporcionando mais tranquilidade aos síndicos e moradores.

Em suma, a vida em condomínio exige atenção e conhecimento das regras estabelecidas. Desde a interpretação do regimento interno até a análise minuciosa de contratos, cada detalhe contribui para um convívio harmônico e financeiramente saudável. O síndico e os condôminos que se dedicam a compreender esses aspectos estão mais preparados para proteger os interesses coletivos e garantir um ambiente seguro e agradável para todos.

Fontes

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