A aposentadoria é um marco importante na vida de qualquer trabalhador, representando o momento de colher os frutos de anos de dedicação. Planejar essa fase com antecedência é fundamental para garantir tranquilidade e segurança financeira. Uma dúvida comum surge quando se fala sobre o Fundo de Garantia por Tempo de Serviço (FGTS): ele pode ser um aliado no planejamento da aposentadoria? E mais: vale a pena manter esse recurso guardado para emergências futuras?
A resposta para essas questões reside na forma como o FGTS é utilizado e planejado. Embora o saque imediato possa parecer tentador, a utilização estratégica deste fundo pode, sim, contribuir significativamente para um futuro mais seguro e, em alguns cenários, até complementar a renda na aposentadoria.
O que é o FGTS e como ele funciona
O Fundo de Garantia por Tempo de Serviço (FGTS) é uma poupança compulsória criada para proteger o trabalhador em diversas situações, como demissão sem justa causa, aposentadoria, doenças graves e aquisição da casa própria. Mensalmente, o empregador deposita 8% do salário do empregado em uma conta vinculada. Esse valor é corrigido anualmente pela Taxa Referencial (TR) mais 3% ao ano, além de uma parcela do resultado do FGTS distribuída aos trabalhadores detentores de saldo em 31 de dezembro de cada ano, conforme deliberação do Conselho Curador do FGTS.
Em 2018, por exemplo, a rentabilidade do FGTS foi de 6,18%, superior à da poupança e ao IPCA. Em 2019, alcançou 4,19%, e em 2020, 4,92%, demonstrando que, em certos períodos, o rendimento do FGTS pode superar outras aplicações de baixo risco. O saldo acumulado pode ser sacado integralmente em caso de demissão sem justa causa, ou parcialmente, através da modalidade saque-aniversário.
FGTS e o sonho da casa própria: uma estratégia para o futuro
Uma das utilizações mais conhecidas e incentivadas do FGTS é na aquisição de imóveis. Ele pode ser usado para dar entrada em um financiamento, amortizar ou quitar o saldo devedor de um financiamento já existente, e até mesmo para pagar parte das parcelas por até 12 meses consecutivos. Para muitos brasileiros, o FGTS é a chave para sair do aluguel e conquistar o primeiro imóvel.
Contudo, a decisão de usar o FGTS para comprar um imóvel deve ser ponderada. Conforme explica a C.A.C Engenharia, utilizar o FGTS significa antecipar um recurso que poderia estar disponível no futuro. A vantagem, no entanto, surge quando o imóvel adquirido tem potencial de valorização ou quando a compra substitui um gasto com aluguel. Um imóvel próprio, especialmente se for o lar definitivo, traz segurança de moradia e pode gerar economia mensal, compensando a redução do saldo futuro do FGTS.
A escolha de um bom imóvel, com potencial de valorização e localizado em áreas em crescimento, é crucial para transformar o uso do FGTS em um investimento inteligente e estratégico para o planejamento financeiro de longo prazo.
O FGTS como reserva de emergência ou investimento complementar?
Para além da compra de imóveis, a discussão sobre o uso do FGTS para emergências ou investimentos é recorrente. A modalidade saque-aniversário permite a retirada anual de uma parte do saldo, o que pode ser uma alternativa para quem busca liquidez e oportunidades de investimento.
Especialistas como Rodrigo Sgavioli, Head de Alocação da XP Investimentos, destacam que o FGTS, embora funcione como uma poupança forçada, possui retornos geralmente inferiores aos de investimentos mais conservadores. Ele sugere que a retirada, especialmente o saque-aniversário, pode ser vista como um “14º salário” para organizar as finanças.
Para quem tem finanças saudáveis, o saque pode ser uma porta de entrada para o mundo dos investimentos. Aplicações atreladas à Selic, 100% do CDI, ou fundos de renda fixa conservadores, como o Fundo Trend DI Simples, já tendem a superar os 3% de rendimento anual do FGTS. Sgavioli recomenda que, para quem já possui uma reserva de emergência, o valor sacado pode ser direcionado a investimentos com retornos maiores, sempre adequados ao perfil de risco do investidor.
As opções sugeridas pela XP incluem fundos DNA ou Selection, que oferecem diversificação e acesso a estratégias como Fundos Multimercados, com valores iniciais acessíveis, a partir de R$ 100.
Manter o FGTS para emergências futuras: um olhar estratégico
Considerando a segurança financeira a longo prazo e o planejamento da aposentadoria, a decisão de manter o saldo do FGTS intacto para emergências futuras merece atenção. O fundo é, por natureza, uma reserva de proteção para situações específicas previstas em lei, como a demissão sem justa causa.
Sacar o FGTS pode significar perder essa proteção imediata. No entanto, a construção de uma sólida reserva de emergência em investimentos com melhor rentabilidade pode suprir essa necessidade. Se o objetivo principal é a segurança futura, e o trabalhador já possui ou está construindo uma reserva de liquidez eficiente fora do FGTS, a manutenção do saldo pode ser estratégica.
É importante ponderar que, sem o saque, o saldo do FGTS continua a render, ainda que em patamares inferiores a algumas opções de investimento. A decisão final dependerá do perfil do indivíduo, seus objetivos de curto, médio e longo prazo, e sua disciplina em construir e manter outras formas de segurança financeira.
Planejando a aposentadoria com o FGTS: um balanço final
O FGTS pode ser, sim, um componente valioso no planejamento da aposentadoria e na construção de segurança financeira. No entanto, seu uso deve ser intencional e alinhado aos objetivos de vida.
Para quem busca a casa própria, o uso estratégico do FGTS pode representar um ganho patrimonial e uma economia a longo prazo. Para aqueles que visam complementar a renda ou criar uma reserva de emergência mais robusta, o saque-aniversário, combinado com investimentos de maior rentabilidade, surge como uma alternativa viável.
Manter o FGTS como uma rede de segurança contra imprevistos, como a perda do emprego, é uma opção válida, desde que outras formas de reserva de emergência estejam bem estabelecidas. O segredo reside em entender as regras, avaliar os prós e contras de cada modalidade de saque e, principalmente, alinhar essas decisões com um plano financeiro bem estruturado para garantir um futuro tranquilo e próspero.
