Como a falta de informação sobre regras de condomínio causa conflitos entre vizinhos

A vida em condomínio, muitas vezes idealizada como um espaço de harmonia e segurança, pode rapidamente se transformar em um campo minado de tensões e desentendimentos. Um dos principais vilões nessa dinâmica são as falhas na comunicação e a carência de informação clara sobre as regras que regem a convivência. Quando os moradores desconhecem seus direitos e deveres, ou interpretam as normas de maneira equivocada, o resultado quase sempre é o conflito. Este artigo explora como a falta de informação sobre as regras de condomínio pode escalar para desentendimentos entre vizinhos e o que pode ser feito para mitigar essas situações.

A ausência de um conhecimento compartilhado sobre o que é permitido e o que não é, dentro dos limites da propriedade e do espaço comum, abre brechas para interpretações divergentes. O que para um é um simples aborrecimento tolerável, para outro pode ser um incômodo insuportável, levando a reclamações e, eventualmente, a atritos. Compreender as regras é o primeiro passo para uma convivência pacífica e para evitar que pequenos desentendimentos se transformem em disputas maiores.

A origem dos desentendimentos: desinformação e divergência

É bastante comum que discussões surjam em condomínios por motivos aparentemente banais, como barulhos excessivos provenientes das unidades. Passos fortes, quedas de objetos, arrastar de móveis ou até mesmo festas podem gerar insatisfação em quem está ao lado. Muitas vezes, a unidade incomodada busca a administração do condomínio esperando uma solução baseada na convenção ou no regimento interno, documentos que geralmente detalham o que constitui infração e quais as punições cabíveis.

No entanto, o que muitas vezes falha é o acesso e a compreensão dessas regras pelos próprios condôminos. A convenção condominial, por exemplo, estabelece limites ao direito de propriedade para garantir o bom convívio social, conforme previsto no art. 1.277 do Código Civil. Esse artigo preconiza que o proprietário não pode, em seu prédio, dar saída a águas, nem esgoto, nem de outras emanações, que prejudiquem as vizinhanças, nem其ar ruídos ou sons, que se tornem insuportáveis aos ouvidos dos vizinhos. Contudo, a aplicação prática e a percepção do que é “insuportável” podem variar enormemente.

O papel da administração: inércia versus proatividade

Um ponto crucial na gestão de conflitos condominiais é a postura da administração. A inércia do síndico ou da administradora diante de reclamações pode, paradoxalmente, gerar responsabilidade para o próprio condomínio. O judiciário tem, cada vez mais, recebido ações em que o condomínio é demandado como corresponsável por reclamações de barulho e outros inconvenientes entre moradores. Quando a administração não se empenha ativamente na busca por soluções, pode ocorrer a condenação por omissão, conforme aponta Thiago Badaró em sua análise sobre o tema no Portal SíndicoNet. A gestão tem a responsabilidade de zelar pela boa vizinhança e, se falhar nisso, pode arcar com as consequências.

Isso não significa que o síndico deva aplicar multas ou advertências de forma indiscriminada. O papel fundamental é o de mediador. Participar ativamente da tentativa de composição entre os moradores é um fator crucial para afastar a responsabilidade do condomínio e evitar custos futuros com condenações judiciais. Em casos onde a administração demonstra diligência, ouvindo as partes e buscando oportunidades para que elas cheguem a um acordo, as decisões judiciais tendem a afastar a responsabilidade do condomínio, como exemplificado em um julgado do TJSP:

A d. Magistrada sentenciante acolheu a preliminar de ilegitimidade passiva do Condomínio, sob o argumento de que não havia nos autos “qualquer indicativo de que o condomínio quedou-se inerte diante das reclamações das autoras, de modo a configurar a prática de ato ilícito, a ensejar sua responsabilidade por danos, aos quais, inclusive, inequivocamente, não deu.

Essa decisão evidencia que a proatividade do condomínio em tentar solucionar os problemas fortalece a tese de que a responsabilidade final recai sobre os condôminos envolvidos, e não sobre a gestão, desde que esta demonstre ter agido com zelo.

Ferramentas para uma convivência harmoniosa

Para combater a falta de informação e prevenir conflitos, algumas estratégias podem ser adotadas pela administração e pelos próprios moradores:

Comunicação clara e acessível: As regras do condomínio – seja a convenção, o regimento interno ou as deliberações em assembleia – devem ser facilmente acessíveis a todos os moradores. Isso pode incluir:

  • Disponibilização online em área restrita do site do condomínio ou aplicativo.
  • Distribuição de cartilhas ou resumos periodicamente.
  • Sessões de esclarecimento promovidas pela administração.

Campanhas de conscientização: Promover campanhas regulares sobre temas como tolerância, respeito mútuo, uso de áreas comuns, horários de silêncio e descarte correto de lixo pode reforçar a importância do cumprimento das normas e da empatia entre os vizinhos. O Portal SíndicoNet sugere, inclusive, a baixa de cartazes informativos sobre relacionamento com vizinhos.

Mediação de conflitos: Em vez de aguardar a escalada do problema, a administração pode oferecer um canal de mediação. O síndico pode atuar como um facilitador neutro, ouvindo ambas as partes e buscando um ponto de equilíbrio que atenda aos interesses de todos, dentro do que é permitido pelas regras.

Educação sobre o direito de vizinhança: Muitas vezes, os conflitos surgem da ignorância sobre o que de fato constitui um direito ou um dever. Informar os moradores sobre os princípios do direito de vizinhança, que visam equilibrar o direito de propriedade com a necessidade de convívio social, é fundamental. Isso inclui entender que a propriedade privada tem limites quando afeta o bem-estar coletivo.

O impacto da tecnologia na gestão de conflitos

A tecnologia oferece ferramentas poderosas para melhorar a comunicação e a gestão condominial. Aplicativos e plataformas online podem centralizar informações, facilitar a comunicação entre moradores e síndico, e até mesmo gerenciar solicitações e reclamações de forma organizada. Isso ajuda a documentar as tentativas de resolução de conflitos e a manter um registro das ocorrências, o que pode ser crucial em caso de disputas legais.

Em resumo, a vida em condomínio exige um esforço contínuo de todos os envolvidos para manter a harmonia. A falta de informação sobre as regras é um terreno fértil para conflitos, mas a proatividade da administração, a comunicação clara e o uso de ferramentas de conscientização e mediação podem transformar o ambiente condominial em um espaço de verdadeira convivência pacífica e respeitosa.

Fontes

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