Nação caribenha, adversária do Brasil nos campos de futebol, vive uma realidade de desafios econômicos severos, marcada por décadas de dificuldades estruturais e sociais, revelando a urgência de reformas e apoio internacional
O Haiti, nação caribenha que enfrenta o Brasil na Copa, confronta uma realidade de sérios desafios econômicos que transcendem os gramados. O país acumula sete anos consecutivos de recessão, registrando uma inflação anual de 21% e deixando 5,7 milhões de pessoas em situação de insegurança alimentar, consolidando-se como o país mais pobre das Américas, conforme informações do Santa Portal.
Professor de economia da Universidade Presbiteriana Mackenzie, Cláudio dos Santos, detalha que a nação caribenha enfrenta problemas econômicos graves resultantes de um acúmulo de fatores negativos ao longo dos séculos.
“Colonização, isolamento econômico após a independência, instabilidade política crônica, instituições frágeis, desastres naturais recorrentes e baixo investimento em infraestrutura ocasionaram problemas econômicos graves no país.”
A independência haitiana, proclamada em janeiro de 1804 após a revolta de escravizados contra a colônia francesa, culminou em um isolamento econômico imposto pela França. A antiga metrópole exigiu uma indenização de 150 milhões de francos, equivalente a cerca de US$ 21 bilhões em valores atuais, que levou o país à ruína financeira da época. Para quitar a dívida, o Haiti contraiu empréstimos bancários, um passivo que persiste como um fardo econômico.
A instabilidade política também desenhou profundamente a trajetória nacional. Entre 1957 e 1986, o Haiti esteve sob o regime autoritário da família Duvalier, liderado por François Duvalier, conhecido como Papa Doc, e seu filho, Jean-Claude Duvalier, o Baby Doc. O professor Cláudio dos Santos aponta que a gestão da família Duvalier deixou um legado de sofrimento para a população.
“O governo autoritário dos dois foi responsável por piorar a situação econômica do país e por manter a população sob um governo extremamente violento.”
Grandes tragédias naturais também assolaram o território. Em 2010, um devastador terremoto provocou ao menos 222,5 mil mortes e mais de 1,3 milhão de desabrigados, conforme a Administração Nacional Oceânica e Atmosférica dos Estados Unidos (NOAA). Em 2021, o assassinato do então presidente Jovenel Moïse em sua residência aprofundou ainda mais a crise institucional do país.
Os números econômicos refletem essa história complexa. O Fundo Monetário Internacional (FMI) projeta um PIB de US$ 39,18 bilhões para o Haiti em 2026, em contraste com os US$ 2,6 trilhões do Brasil. O PIB per capita haitiano é de US$ 3.000, contra US$ 12,3 mil do Brasil. O Instituto Haitiano de Estatística e Informática (IHSI) confirmou o sétimo ano consecutivo de recessão e uma inflação de 21% em abril deste ano. O Banco Mundial indica que 19% da população vive com menos de US$ 3 por dia. Dados da Organização das Nações Unidas (ONU) revelam que 5,7 milhões de pessoas enfrentam insegurança alimentar crônica, um número que, segundo o IHSI, cresceu de 2,3 milhões em 2018 para 5,7 milhões em setembro de 2025.
A economia haitiana, segundo o professor do Mackenzie, depende majoritariamente da agricultura, de pequenas atividades de serviços e da indústria de manufatura voltada à exportação, especialmente o setor têxtil. A agricultura contribuiu com 14,4% do PIB, mas experimenta queda contínua, com recuos de 29% na produção de milho e 25% em outros cultivos. Os desafios nesse setor incluem revoltas de trabalhadores rurais, eventos climáticos adversos, acesso restrito a insumos como sementes e fertilizantes, falta de investimento e o envelhecimento da mão de obra.
Atualmente, vastas porções do território haitiano estão sob o domínio de gangues. Relatórios da ONU indicam que entre 85% e 90% da região metropolitana de Porto Príncipe, a capital, é controlada por ao menos 26 grandes facções criminosas. Esses grupos surgiram de uma tradição de milícias fortalecida durante a ditadura Duvalier, intensificando-se após o assassinato presidencial em 2021.
O impacto econômico das gangues é direto e severo. Santos explicou os efeitos em cascata na economia.
“As gangues controlam áreas estratégicas, bloqueiam rotas de transporte, dificultam o abastecimento de mercadorias e afastam investimentos. Empresas enfrentam maiores custos de operação e muitas acabam reduzindo atividades ou encerrando suas operações.”
O IHSI aponta que a extorsão de mercadorias e passageiros em estradas nacionais pelas gangues eleva custos de transporte e preços finais. Agricultores e empreendedores são coagidos a pagar quantias exorbitantes para operar. As ações desses grupos também forçam famílias a se deslocarem massivamente, desequilibrando o mercado imobiliário com queda na demanda em áreas de conflito e pressão em zonas seguras.
Uma fonte crucial de renda para muitas famílias haitianas são as remessas enviadas por compatriotas residentes no exterior, principalmente nos Estados Unidos, Canadá, República Dominicana, França e Brasil. Essa diáspora se formou a partir das crises político-econômicas das últimas décadas. Segundo o IHSI, essas transferências financeiras aumentaram 19,6% em 2025 comparado a 2024, alcançando US$ 4,91 bilhões.
Para o professor Santos, a recuperação econômica haitiana exige uma fundação essencial.
“Sem isso, torna-se difícil atrair investimentos, gerar empregos e expandir a atividade econômica. A recuperação econômica dependerá tanto de reformas internas quanto do apoio contínuo da comunidade internacional.”
