Polícia Federal detém ex-dirigente do BRB sob suspeita de receber seis imóveis de luxo avaliados em R$ 146,5 milhões como propina
Agentes da Polícia Federal efetuaram a prisão de Paulo Henrique Costa, ex-presidente do Banco de Brasília (BRB), em um edifício na capital federal. O executivo foi posteriormente encaminhado à Superintendência da PF e, no final da tarde, transferido para a Penitenciária da Papuda. A operação teve autorização do ministro André Mendonça, do Supremo Tribunal Federal (STF), relator do caso. Esta nova fase da investigação aprofunda a primeira etapa da operação Compliance Zero.
De acordo com o relatório da Polícia Federal enviado ao ministro, as apurações iniciais indicam a existência de um esquema ilícito voltado para a viabilização da fabricação, venda e cessão de carteiras de crédito fictícias do Banco Master para o BRB. Essa operação teria gerado um impacto patrimonial e institucional significativo. A estrutura foi montada para dissimular a fragilidade do modelo de negócios do Banco Master, que não possuía lastro real suficiente para justificar a extensão das cessões realizadas.
Em 2025, o BRB tentou adquirir o Master, mas o Banco Central vetou a transação. Em novembro do mesmo ano, o BC decretou a liquidação do banco pertencente a Daniel Vorcaro. O BRB havia adquirido R$ 12 bilhões em carteiras de crédito sem garantias financeiras adequadas.
Segundo a PF, Paulo Henrique Costa foi um elemento crucial para viabilizar a compra dessas carteiras fraudulentas. Em contrapartida, ele teria recebido uma vantagem indevida, configurada por seis imóveis de alto padrão localizados em São Paulo e Brasília, com valor estimado em R$ 146,5 milhões. Quase R$ 75 milhões desse montante teriam sido efetivamente quitados.
Os imóveis sob investigação não foram registrados diretamente em nome de Paulo Henrique Costa. A Polícia Federal aponta que empresas de fachada, fundos de investimento e interpostas pessoas (laranjas) foram utilizados para ocultar a identidade do verdadeiro beneficiário. A decisão judicial menciona um “cronograma pessoal” do ex-presidente do BRB com uma lista de empreendimentos imobiliários. Um dos imóveis citados está situado na mesma região onde ele reside em Brasília, com apartamentos cujo valor ultrapassa os R$ 4 milhões. A maioria dos bens de luxo está concentrada em bairros nobres de São Paulo, incluindo apartamentos com até 700 m².
O ministro André Mendonça ressaltou em sua decisão que a acusação contra Paulo Henrique Costa transcende uma simples negligência administrativa ou falha de governança, alcançando, em tese, a sua adesão consciente a um arranjo criminoso.
A decisão que autorizou a operação desta quinta-feira (16) contém trechos de mensagens trocadas entre Daniel Vorcaro e Paulo Henrique Costa. Em uma das comunicações, sem data definida, o então presidente do BRB escreveu ao banqueiro:
“Amigo, obrigado pela conversa de hoje. A cada passo, o caminho está mais claro e estou mais empolgado com o que vamos construir. Além disso, dou muito valor ao alinhamento pessoal. E acho que estamos bem alinhados em relação ao trabalho, visão de mundo e perfil. Estou trabalhando para lançar a operação amanhã ou, no mais tardar, na segunda-feira. O governador me pediu que preparasse um material para a argumentação dele, porque vamos receber críticas”.
Em resposta, Vorcaro escreveu:
“Fala amigo, ótimo, também estou empolgado. Vou alinhar tudo com Daniel. Vou te passar uma pessoa que te mostrará o apartamento”.
O governador mencionado nas mensagens é Ibaneis Rocha, do MDB, que ocupou o cargo máximo do Executivo do Distrito Federal até março de 2026. O governo do DF é o principal acionista do Banco de Brasília.
Em São Paulo, a PF prendeu o advogado Daniel Monteiro. A investigação aponta que Monteiro atuou nas transações fraudulentas entre o BRB e o Master, além de ter participado do esquema para ocultar Paulo Henrique como beneficiário dos imóveis, recebendo R$ 86 milhões por essa atuação. Segundo a apuração, Vorcaro teria obtido informações sobre um inquérito sigiloso que apurava o caso e orientado seu operador jurídico, Daniel Monteiro, a “travar tudo”, referindo-se aos pagamentos para Paulo Henrique.
A Polícia Federal sustenta que há “fortes indícios de que o presidente da estatal do Distrito Federal, o investigado Paulo Henrique, atuava como um verdadeiro mandatário de Daniel Vorcaro no âmbito do BRB”.
Paulo Henrique Costa já havia sido afastado da presidência do BRB em novembro de 2025, durante a primeira fase da operação, quando foi alvo de mandados de busca e apreensão. Atualmente, o BRB busca um empréstimo de R$ 6,6 bilhões para compensar o prejuízo causado pela aquisição de créditos considerados “podres” do Master. A polícia também cumpriu sete mandados de busca e apreensão no Distrito Federal e em São Paulo. Os envolvidos podem responder por gestão fraudulenta de instituição financeira, corrupção, lavagem de dinheiro e organização criminosa.
