Aprovar um financiamento imobiliário ou um crédito significativo no banco pode parecer um quebra-cabeça complexo, onde o salário individual é apenas uma peça. No entanto, muitos se perguntam: como a renda familiar realmente influencia a decisão do banco sobre a aprovação de um empréstimo, especialmente quando se tem um salário específico? A resposta está na capacidade consolidada de pagamento e na percepção de risco que a instituição financeira tem sobre o grupo familiar como um todo.
Na prática, bancos analisam a renda familiar como um indicador mais robusto da capacidade de honrar compromissos financeiros de longo prazo. Isso significa que, ao somar os ganhos de todos os membros da casa, a instituição tem uma visão mais clara do potencial de pagamento e do impacto que uma nova dívida terá no orçamento doméstico. Portanto, entender como essa soma é calculada e o que os bancos consideram é o primeiro passo para planejar seu futuro financeiro.
Desvendando o conceito de renda familiar
Para a maioria das instituições financeiras e programas governamentais, a renda familiar é a soma de todos os rendimentos mensais brutos (sem descontos) de todas as pessoas que residem na mesma casa. Isso pode incluir salários, proventos, pró-labore, pensões, benefícios da previdência, comissões, bônus, rendimentos de trabalho não assalariado ou autônomo, ganhos de renda extra e aluguéis.
Por exemplo, se em uma residência moram quatro pessoas, e cada uma delas tem um salário bruto de R$ 2.000, a renda familiar total seria de R$ 8.000. Esse valor agregado é o que os bancos utilizam para avaliar a capacidade de pagamento e definir o montante máximo que podem aprovar para um financiamento ou outro tipo de crédito.
É crucial distinguir a renda familiar da renda per capita. Enquanto a renda familiar é a soma total dos ganhos, a renda per capita é obtida dividindo a renda familiar pelo número de pessoas na casa. Saber essa diferença é importante, pois algumas análises podem considerar ambos os indicadores, mas a renda familiar é o fator principal para a aprovação de crédito habitacional.
O que entra no cálculo da renda familiar?
A composição da renda familiar é bastante abrangente e visa capturar toda a capacidade financeira do núcleo doméstico. Os principais componentes incluem:
- Salários de todos os membros com carteira assinada (CLT).
- Proventos, que são a remuneração de servidores públicos.
- Pró-labore, o “salário” dos sócios e donos de empresas.
- Pensões, incluindo pensão alimentícia, conforme estabelecido pelo Decreto nº 6.214/2.007.
- Benefícios da previdência, tanto públicos (INSS) quanto privados.
- Comissões e bônus recebidos por desempenho.
- Ganhos de trabalho não assalariado e atividades autônomas.
- Rendimentos provenientes de aluguéis de imóveis.
- Ganhos de renda extra e outras fontes de receita.
O cálculo é direto: some todos esses ganhos brutos. Se uma pessoa mora sozinha, sua renda já é considerada a renda familiar, somando seu salário bruto e quaisquer outras fontes de receita que possua.
Como os bancos avaliam a renda familiar para aprovação de crédito?
Quando um solicitante apresenta um salário X, o banco não olha apenas para esse valor isoladamente. A análise se aprofunda na renda familiar, pois ela demonstra uma capacidade de pagamento mais sólida. Uma das principais regras utilizadas é que o valor da parcela do financiamento não deve comprometer mais do que 30% da renda familiar mensal bruta. Essa diretriz visa garantir que o pagamento das parcelas não sufoque o orçamento da família, reduzindo o risco de inadimplência.
Por exemplo, se a renda familiar total é de R$ 7.000, a parcela máxima permitida seria de R$ 2.100 (30% de R$ 7.000). Caso a renda familiar fosse de R$ 4.000, a parcela máxima seria de R$ 1.200. Isso significa que, com uma renda familiar maior, o valor aprovado para o financiamento pode ser significativamente mais alto, mesmo que o salário individual de um dos membros seja o mesmo.
A composição de renda: expandindo as possibilidades
Para aqueles cujas rendas individuais não são suficientes, a composição de renda surge como uma solução poderosa. Essa prática consiste em somar os rendimentos de duas ou mais pessoas para viabilizar a aprovação de um crédito imobiliário ou outro financiamento de maior valor. Instituições como a Caixa Econômica Federal e programas como o Minha Casa, Minha Vida aceitam e incentivam essa modalidade.
A composição de renda permite que o valor total do financiamento aprovado seja maior, que as parcelas se tornem mais acessíveis ao bolso dos participantes e que as chances de aprovação do crédito imobiliário aumentem consideravelmente. Ao somar as rendas, o limite de 30% de comprometimento de renda se eleva, abrindo portas para imóveis de maior valor.
No entanto, é fundamental ter cautela. Todas as pessoas que compõem a renda se tornam coproprietárias do imóvel e se responsabilizam pelo pagamento das parcelas. Por isso, é crucial que haja harmonia de interesses e que todos estejam cientes de suas obrigações. Além disso, a análise de crédito conjunta considera o histórico de todos os participantes, incluindo idade, estabilidade profissional e endividamento.
Quem pode participar da composição de renda?
Originalmente, a composição de renda era restrita a cônjuges ou companheiros com união estável comprovada. Contudo, as regras evoluíram significativamente. Atualmente, dependendo da instituição financeira, é possível compor renda com diversos familiares, como pais, filhos, irmãos, tios, primos e até mesmo amigos. No entanto, algumas instituições podem impor limites no número de participantes ou exigir algum grau de parentesco.
A idade dos participantes é um fator relevante. A idade máxima permitida para ter um financiamento imobiliário ativo no país é de 80 anos e 6 meses. Isso significa que a idade do participante mais velho pode influenciar diretamente o prazo máximo do financiamento. Um participante com idade mais avançada pode resultar em um prazo menor e, consequentemente, em parcelas mais altas, o que pode anular ou diminuir os benefícios da composição de renda.
Comprovação de renda: o elo fundamental
Para que a renda familiar, seja ela individual ou composta, seja considerada válida pelo banco, a comprovação de renda é um passo indispensável. Os documentos exigidos variam conforme a natureza do trabalho de cada membro da família:
- Trabalhadores com carteira assinada (CLT): Holerites dos últimos três meses e cópias das páginas da carteira de trabalho que contêm os dados do empregado e o registro do emprego atual.
- Autônomos e profissionais liberais: Extratos bancários dos últimos três meses (pessoa física e jurídica), DECORE (Declaração Comprobatória de Percepção de Rendimentos) emitida por um contador, RPA (Recibo de Pagamento de Autônomo) e a Declaração de Imposto de Renda.
- Empresários e empreendedores: Pró-labore, relação de faturamento do último ano assinada pelo contador, Declaração de Firma Individual ou Contrato Social, extratos bancários (física e jurídica), Cartão do CNPJ e Cartão de QSA.
- Aposentados e pensionistas: Recibos de pensão ou aposentadoria dos últimos três meses, extratos bancários e extrato trimestral do INSS.
- Funcionários públicos: Holerites dos últimos três meses.
- Estagiários: Comprovante de pagamento da bolsa estágio dos últimos três meses, extratos bancários e comprovante do contrato de estágio.
A qualidade e a formalidade da comprovação de renda são cruciais. Quanto mais formal e comprovável for a fonte de renda, maiores serão as chances de aprovação do crédito.
O impacto da renda familiar no valor aprovado
A relação entre renda familiar e o valor aprovado pelo banco é direta. Quanto maior a renda familiar comprovada, maior a capacidade de endividamento que o banco considera o solicitante apto a assumir. Isso se traduz em um limite maior para o financiamento de um imóvel, por exemplo.
Se um indivíduo com salário X tem uma renda familiar baixa, as opções de crédito serão mais restritas. No entanto, se esse mesmo indivíduo compõe renda com outros membros da família, elevando a renda familiar total, o valor máximo que o banco poderá aprovar para o financiamento aumenta proporcionalmente. Isso não significa que o banco emprestará mais do que a pessoa pode pagar, mas sim que a análise de risco se torna mais favorável, permitindo um valor de empréstimo mais substancial.
Programas habitacionais e a renda familiar
Programas como o Minha Casa, Minha Vida são exemplos claros de como a renda familiar é um critério fundamental. Esses programas segmentam os beneficiários por faixas de renda familiar para oferecer condições de pagamento e subsídios diferenciados. Famílias com rendas mais baixas, dentro das faixas elegíveis, podem ter acesso a benefícios maiores, tornando a conquista da casa própria mais viável.
Por outro lado, o Sistema Brasileiro de Poupança e Empréstimo (SBPE) estabelece que as parcelas do financiamento não podem ultrapassar 30% da renda mensal bruta do solicitante. Independentemente do programa, a lógica subjacente é a mesma: garantir que o compromisso financeiro seja sustentável para o comprador.
Dicas para otimizar sua renda familiar e conseguir aprovação
Para quem busca aprovação de crédito, especialmente para um financiamento imobiliário, otimizar a renda familiar é um passo estratégico. Considere as seguintes dicas:
- Componha renda estrategicamente: Se possível, inclua familiares com boa estabilidade financeira e sem restrições de crédito. Lembre-se das implicações legais e de propriedade.
- Formalize rendas extras: Se você ou membros da família possuem fontes de renda extra, busquem formas de formalizá-las e comprová-las, como a emissão de notas fiscais ou declarações adequadas.
- Planeje a entrada do imóvel: Uma entrada maior reduz o valor a ser financiado, diminuindo o impacto das parcelas na renda familiar e aumentando suas chances de aprovação. O uso do FGTS também pode auxiliar.
- Compare propostas de financiamento: Pesquise diferentes bancos e instituições financeiras. As taxas de juros e condições podem variar significativamente, afetando o valor das parcelas e o montante total pago ao longo do tempo. Utilize simuladores para ter uma visão clara das opções.
Ao compreender a importância da renda familiar e como ela é avaliada, os consumidores podem se planejar melhor e aumentar suas chances de obter a aprovação de crédito desejada, transformando seus objetivos em realidade.
