Baseada em Risco/Cautela:** Quais os riscos de gastar todo o FGTS? E se eu precisar do dinheiro depois?

A ideia de ter acesso a uma quantia considerável de dinheiro pode ser tentadora, especialmente quando as finanças apertam. O Fundo de Garantia por Tempo de Serviço (FGTS) é uma reserva que muitos trabalhadores acumulam ao longo da carreira, e a possibilidade de utilizá-lo, seja para quitar dívidas ou para outras finalidades, surge como um alívio imediato para muitos. No entanto, antes de tomar qualquer decisão impulsiva, é fundamental ponderar sobre os riscos e as implicações futuras desse saque.

Especialistas alertam que, embora possa parecer uma solução rápida, gastar todo o saldo do FGTS pode comprometer a segurança financeira a longo prazo e deixar o trabalhador desprovido em momentos de necessidade genuína. Este artigo explora os perigos de esvaziar essa conta e o que considerar antes de acessar esses recursos.

Quando o FGTS pode ser sacado?

O FGTS é, por natureza, um fundo de proteção ao trabalhador. As regras estabelecidas pela Caixa Econômica Federal definem um conjunto específico de situações em que o saque é permitido. Entre elas, destacam-se:

  • Demissão sem justa causa;
  • Rescisão por acordo (conforme reforma trabalhista de 2017);
  • Término de contrato por prazo determinado;
  • Extinção ou falência da empresa;
  • Falecimento do empregador;
  • Anulação do contrato de trabalho;
  • Rescisão por culpa recíproca ou força maior;
  • Aposentadoria;
  • Necessidade pessoal, urgente e grave, decorrente de desastre natural;
  • Suspensão do trabalho avulso;
  • Falecimento do trabalhador;
  • Idade igual ou superior a 70 anos;
  • Portador do vírus HIV (trabalhador ou dependente);
  • Neoplasia maligna (câncer) (trabalhador ou dependente);
  • Estágio terminal em razão de doença grave (trabalhador ou dependente);
  • Conta sem depósito por três anos ininterruptos;
  • Amortização ou liquidação de saldo devedor em sistemas imobiliários de consórcio;
  • Aquisição de órtese e/ou prótese para promoção de acessibilidade.

Além dessas situações, existe a modalidade do saque-aniversário, que permite ao trabalhador retirar uma parte do saldo anualmente, no mês do seu aniversário. O valor a ser sacado é definido por uma alíquota sobre o saldo total, que varia de 5% a 50%, acrescido de uma parcela adicional, dependendo do valor acumulado na conta. Contudo, é crucial entender que, ao optar pelo saque-aniversário, o trabalhador perde o direito de sacar o valor integral do FGTS em caso de demissão sem justa causa, ficando apenas com a multa rescisória.

Os riscos de usar o FGTS para quitar dívidas

A tentação de se livrar de dívidas com juros altos, como as de cartão de crédito ou cheque especial, pode ser imensa. Especialistas consultados pelo G1 apontam que, em alguns cenários, pode ser vantajoso. Quitar esses débitos pode gerar uma economia significativa a longo prazo, recuperar o crédito e facilitar a organização financeira. No entanto, essa estratégia vem acompanhada de riscos substanciais.

O principal receio dos especialistas é que o trabalhador gaste todo o saldo do FGTS e, sem um planejamento financeiro adequado, acabe contraindo novas dívidas. Conforme aponta Wanessa Guimarães, sócia da HCI Invest, se a causa do endividamento for um comportamento financeiro descontrolado, há o risco de o problema persistir. Nesse caso, sem a reserva do FGTS, o trabalhador fica desamparado.

Além disso, o saque dos recursos diminui o saldo disponível para emergências futuras. O FGTS funciona como um colchão financeiro, e utilizá-lo integralmente para quitar dívidas pode deixar o trabalhador vulnerável a imprevistos, como despesas médicas inesperadas ou a necessidade de cobrir um período sem renda.

O impacto a longo prazo

A CNN Brasil também destaca os riscos de antecipar saques do FGTS. Especialistas alertam que, se os saques antecipados se tornarem recorrentes, o fundo pode perder sua finalidade principal: proteger o trabalhador demitido sem justa causa e financiar programas de habitação e infraestrutura urbana. Enrico Cozzolino, head de análises da Levante Investimentos, ressalta que o uso imediato dos recursos pode prejudicar o pensionista e o planejamento para o futuro.

Outro ponto importante é a proteção contra a inflação. O FGTS, mesmo com rentabilidade moderada, oferece uma proteção contra a corrosão do poder de compra ao longo do tempo. Ao sacar o dinheiro, o trabalhador perde essa proteção e o poder de compra do valor retirado pode diminuir com o passar dos anos, especialmente se ele não reinvestir o montante de forma eficaz.

Harion Camargo, consultor de investimentos, aponta que a flexibilização de saques pode ser vista como um desvio da função de poupança compulsória, transformando o FGTS em uma fonte de liquidez imediata, o que pode comprometer a sustentabilidade do sistema e o financiamento de projetos essenciais, como o programa Minha Casa, Minha Vida.

E se eu precisar do dinheiro depois?

Essa é a pergunta de um milhão de dólares. Se você gastou todo o seu FGTS para quitar dívidas ou para outros fins, e surge uma emergência — como a perda do emprego, uma doença grave, ou a necessidade de dar entrada em um imóvel —, o que acontece? Na modalidade Saque-Rescisão, o trabalhador demitido sem justa causa tem direito ao valor total. Já no Saque-Aniversário, ele só poderá acessar a multa rescisória. Se você já sacou o valor integral e não tem mais saldo, essa opção de segurança financeira simplesmente deixa de existir.

Cuidados essenciais antes de decidir

A decisão de sacar o FGTS deve ser tomada com cautela e baseada em uma análise financeira profunda. Especialistas recomendam os seguintes passos:

  • Organize o orçamento e faça um balanço financeiro: Entenda suas receitas e despesas, liste todas as dívidas e analise sua real situação financeira.
  • Avalie alternativas de renegociação: Antes de mexer no FGTS, tente renegociar suas dívidas com os credores. Um parcelamento com juros menores pode ser uma opção viável.
  • Identifique os juros das suas dívidas: Priorize a quitação de débitos com as maiores taxas de juros (cartão de crédito, cheque especial). Se o custo para quitar essa dívida com o FGTS for menor do que os juros pagos ao longo do tempo, pode valer a pena.
  • Planeje o futuro: Considere se o valor sacado fará falta para objetivos futuros, como a compra de um imóvel, a educação dos filhos ou a própria aposentadoria.
  • Busque renda extra: Explore possibilidades de aumentar sua renda para lidar com as dívidas sem comprometer seu fundo de garantia.
  • Mantenha uma reserva financeira: Se decidir sacar parte do FGTS, certifique-se de manter uma reserva de emergência separada e intacta. O ideal é ter um valor equivalente a seis meses de suas despesas básicas guardado.
  • Informe-se sobre as modalidades de saque: Compreenda as diferenças entre o Saque-Rescisão e o Saque-Aniversário e como cada escolha impacta seus direitos futuros.

O FGTS é uma ferramenta importante de segurança e investimento para o trabalhador. Utilizá-lo de forma consciente e planejada é a chave para garantir um futuro financeiro mais tranquilo e seguro, sem comprometer os direitos e as proteções que esse fundo oferece.


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Fontes

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